O jardim “proibido” de Aldecir

Sempre que eu saio, encontro pela rua gente bonita. Como Aldecir Tavares de Lima, 70, técnico em telecomunicações aposentado. Natural do município de Vitória de Santo Antão, ele mora há 34 anos na Rua 12, em Maranguape, município de Paulista, na Região Metropolitana do Recife. Na via onde reside, passa um canal que, como todos os canais, foi um riacho um dia. Aldecir lembra do tempo em que pescava camarões no local e até alguns peixes. Mas a população cresceu, saneamento nem pensar. Hoje, o canal é um esgoto a céu aberto. E como se isso não bastasse, ainda tem quem o entupa com lixo.

Mesmo assim, ele não desanimou. Fez nas margens do canal um jardim, uma pequena horta e até um pomar. “Plantei nas duas margens para o povo não jogar lixo”, afirma. “Apesar do meu cuidado, as pessoas ainda desrespeitam esse espaço verde, pois na última limpeza tirei cinco sacos de lixo que trouxe para minha lixeira doméstica”, lamenta. Entre as plantas ornamentais, ele cultiva costela-de-adão, rosas, bom dia, boa noite e sempre-vivas. Também cultiva fruteiras como mangueira, jambos, oitis, pitangas, bananeira, maracujá e até mamão. Até já colheu chuchus, tomates e pimentões no local.

Mas Aldecir está bem triste. Há alguns dias, homens da Prefeitura de Paulista estiveram na Rua 12, para fazer uma “limpeza” no Canal. Lixo ficou muito. Já as plantas… Boa parte foi destruída. A “limpeza” só serviu para levar um pedaço do verde que Aldecir implantara com tanto carinho. No jardim tem até um pé de cana, lembrança dos seus tempos de menino, na Zona da Mata, onde se concentra a agroindústria açucareira de Pernambuco.

Ele não consegue entender o motivo pelo qual as autoridades têm tanta aversão ao que é bom. No caso, o verde.  Principalmente em Paulista, um dos municípios do Grande Recife onde fragmentos de Mata Atlântica são sempre destruídos. “Veio a podação e destruiu tudo, até oiti brotando”, diz, desolado. Derrubaram um pé de manga rosa, oitizeiro, azeitona roxa e jambeiro. Alguém vê alguma semelhança com a “arborização” do Recife?  Em Paulista, quem diz que o drama é só na parte urbana? A situação de matas como a do Frio e a do Janga é de fazer pena. Parem de derrubar árvores.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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