Cinemas “dominados” e poucas opções

Apesar de o Grande Recife contar com um bom número de cinemas – a maior parte concentrada em shopping-centers – o feriado não está diversificado, quando o assunto é que filme assistir. Dei uma olhada na programação de hoje e, pasmem, só há dez opções, para quem deseja curtir o escurinho das salas refrigeradas e agora cheias de novas tecnologias. Tomem um exemplo: O filme  Os incríveis 2 está passando em quase 20 cinemas, espalhados nas cidades de Recife, Olinda, Casa Forte, Jaboatão dos Guararapes e Camaragibe.

Um outro,  Arranha-Céu: Coragem sem limite, ocupa quase 15 salas de projeção. E por aí vai. Para quem gosta filmes sem esses apelos de ação com carro correndo em disparada (ou pegando fogo), armas a torto e à direita e prédios voando pelos ares – cenas quase obrigatórias nas produções americanas –  fica difícil se programar, em dias como esse 16 de julho, feriado municipal por ser Dia da Padroeira do Recife, Nossa Senhora do Carmo. Os simpáticos cinemas da Fundação Joaquim Nabuco – o do Derby (foto) e o de  Casa Forte (Museu) não funcionam nas segundas-feiras.  O do Museu andou fora do ar para manutenção mas, felizmente, já retomou as atividades.

E tanto o do Derby quando o de Casa Forte contam com programação bem razoável. Estive no sábado no Cinema do Museu, onde fui assistir Amores de Chumbo, de Tuca Siqueira. Não tinha visto ainda. Gostei muito. A cineasta vem se especializando em filmes que abordam o período militar pós 1964. Já havia assistido emocionantes documentários  de Tuca sobre homens e mulheres que foram perseguidos na ditadura brasileira e que amargaram a prisão política. Drama, aliás, que ela viveu em casa, já que seu pai, o hoje vice-prefeito Luciano Siqueira, só saiu da prisão com a lei de anistia. Ele pertencia a um partido proscrito, o PC do B, no qual milita até hoje já que, com o retorno da democracia, o PC do B e muitos outros passaram à legalidade.

Para quem conhece a história de Tuca, não é surpresa ouvir alguns diálogos entre os protagonistas do filme, principalmente entre o sociólogo e professor Miguel e o seu filho, que se queixa de ter passado “seis anos sem o pai”, quando o personagem amargou uma prisão política. O rapaz reclama, também, de ter passado a infância explicando aos colegas no colégio que o pai não estava preso por ser ladrão, mas sim devido à militância. Gostei muito do filme Amores de Chumbo. Retrata uma realidade sobre o obscurantismo que os mais jovens talvez não conheçam tanto como deveriam. E apesar do tema pesado – exílio, prisão, amores não consumados –  a diretora soube imprimir muita delicadeza ao drama vivido por Lúcia, Miguel e Maria Eugênia. Os dois últimos têm reencontro quatro décadas após terem vivido um grande amor, prejudicado não só pelos problemas políticos vigentes mas, também, por uma ação maquiavélica de Lúcia que se apaixonara por Miguel que era apaixonado por Maria Eugênia. Esta, que, ao retornar ao Brasil, encontra o fruto da “armadilha”: a melhor amiga casada com aquele que foi o grande amor de sua vida.  Tudo porque, em manobra ardilosa, Lúcia sonegou ao então futuro marido, toda a correspondência que lhe era enviada do exílio por Eugênia. Haja amor… Amores de Chumbo está em cartaz até  quarta-feira, no Cinema da Fundação, no Derby. Passa na terça (17), às 14h. E na quarta (18), às 15h55. Não deixe de ver.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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