Holandês, fantasma e revitalização

A Zona Norte tem apresentado bons exemplos de recuperação de áreas degradadas por iniciativa da própria comunidade. Estão aí os casos do Jardim Secreto (no Poço da Panela), a Horta Urbana (em Casa Amarela), e o Alto Sustentável (trabalho realizado no Alto José do Pinho). A última intervenção coletiva aconteceu no último sábado, em Casa Forte, onde um terreno à beira de um riacho vinha se transformando em depósito de lixo. Agora rebatizado de Largo do Holandês, o local em forma de triângulo ganhou mudas de  grandes árvores nativas (ipês, craibeiras) e flamboyanzinhos (foto), e já está com outro aspecto. Quando passei lá, no final da manhã do último dia 9, a ação  tinha sido concluída.

Mas os resultados podem ser observados por quem passar lá hoje, depois da mobilização de moradores liderados pelo Grupo Casa Forte Mais Segura. O descarte de lixo já diminuiu. Foram pintadas as calçadas com mensagens em defesa do local e do meio ambiente. A pequena passagem sobre o que chamam hoje de canal – na verdade agora transformado em esgoto a céu aberto – ganhou novas cores. No terreno, foram colocadas placas com  mensagens para  incentivar a população a descartar corretamente o lixo, acionando o 156 para agendamento de coleta de entulhos, móveis, eletrodomésticos.  O local é tido como rota de tropas holandesas, durante uma das batalhas ocorridas no século 17. Mas não é só por isso que vai passar a chamar-se de Largo do Holandês, com direito a projeto de lei apresentado na Câmara Municipal, para a nova denominação oficial e definitiva.

E porque tem holandês no meio? É que segundo relata Gilberto Freyre, no seu livro Assombrações do Recife Velho, na área era tradição “ter aparecido durante anos a figura de um guerreiro ruivo, trajado de veludo e de ouro, cabelo longo e louro como de mulher, lança em riste e cavalo a galope”. E acrescenta: “Dizia-se que era o fantasma de um general holandês que caíra morto na Batalha de Casa Forte (1645)”. Lenda ou não, o fato é que os mais antigos relatam essa história que atravessou várias gerações. Uma das articuladoras do movimento de recuperação do local, a designer Gisela Abad (do Grupo Casa Forte Mais Segura) buscou na lenda uma tentativa de resgate da importância histórica daquela área, que fica bem pertinho da Praça de Casa Forte. E também como forma de despertar nos moradores do local mais cuidado com a limpeza e carinho com o terreno, que fica na confluência das ruas da Harmonia e Avenida Flor de Santana.

A mobilização dos moradores de Casa Forte ganhou apoio da Secretaria de Inovação Urbana no Recife, também responsável pela implantação do Projeto Mais Vida nos Morros, que vem contribuindo para mudar a face da paisagem dos altos recifenses. A revitalização do Largo do Holandês, marca o início de um outro Projeto, no caso o Recife dos Encontros.  Ou seja: a população se mobiliza para melhorar a cidade, e a Prefeitura apoia. Houve, ainda, apoio do Inciti (Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Inovação para as cidades, da Universidade Federal de Pernambuco) e da organização não governamental Aguapé. Outras iniciativas do gênero aconteceram no mesmo final de semana, nas praças Monsenhor Francisco Apolônio Sales e Manoel Oliveira Lima, ambas na Boa Vista.  Ainda por estes dias, devo abordar aqui a questão do Riacho Parnamirim, que passa no local. E que é um dos cem do Recife que viraram esgoto a céu aberto. Mas tem quem ache que ele ainda tem jeito. Será que tem?

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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