“Automóvel é transtorno para muitos”

O transporte individual – o automóvel, no caso – é um mal?  Tive essa impressão, ao ver as ruas vazias, com os ônibus circulando, com mais frequência do que nos dias comuns. Na terça, por exemplo, indo e vindo entre Apipucos e o Plaza Shopping (Casa Forte), contei 32 coletivos passando, 16 indo e 16 voltando. Tenho certeza que, em períodos de normalidade (e de trânsito congestionado) eles não são, digamos assim, tão assíduos. Então coloquei alguns questionamentos para um especialista no assunto. Vejam o que diz Stênio Cuentro, ex-diretor de Operações do DER/PE, ex-Diretor de Engenharia de  Tráfego do Detran e recentemente foi Diretor Geral da Angoaustral, empresa de ônibus em Angola.

#OxeRecife – O transporte individual é um mal?
Stênio – 
 O transporte individual por carros é um privilégio de poucos e transtornos para muitos. Em Londres, desde 2003, existe uma lei, a Congestion Charge, que cobra pedágio urbano aos motoristas de veículos particulares para trafegar no centro da cidade. Com isso, são arrecadados mais de 150 milhões de libras em pedágio e multas ao ano. E esse valor é revertido na melhoria do sistema público de transportes: ônibus, metrô, trens e balsas. Outras cidades da Europa também tarifam o transporte individual.  Em contrapartida, oferecem transporte público de qualidade. Londres por exemplo.

#OxeRecife – No Recife, a frota de automóveis só faz crescer. Mas nas últimas duas décadas, não se abriu uma só via importante na cidade. Qual seria a solução, para evitar tanto congestionamento?
Stênio –
A criação de linhas exclusivas para ônibus e táxis é essencial, no Recife. Já temos mais de 36 quilômetros e a meta são 100 quilômetros. Não é a melhor solução, mas, no curto prazo, é o que pode ser feito. No Governo de Eduardo Campos foi iniciada a implantação de um sistema de BRT – Bus Rapid Transport, que custou quase dois bilhões de reais e está incompleto. Não serve para a nossa região pois, transporta pouco mais de 8.000 passageiros por hora por sentido. O metrô de superfície transporta 10 vezes mais. À época defendemos a implantação de um metrô de superfície por sobre o canal da Agamenon Magalhães, com pouco mais de 4,0 km de extensão, entre o terminal de Joana Bezerra e o Complexo de Salgadinho a um custo de 800 milhões de reais. Menos da metade do BRT.

#OxeRecife – Na Região Metropolitana, temos 2.700 ônibus circulando, para transportar 1.800.000 passageiros por dia. A quantidade é suficiente?
Stênio – 
A frota colocada em operação deveria atender bem ao serviço. Cada ônibus pode transportar até 1.000 passageiros por dia por linha. Isso significa 2.700.000 passageiros por dia. Na realidade o que está errado e por isso a passagem é cara, é o modelo de remuneração das empresas. Objetivamente a frota deveria atender e até com sobras, devido ao excesso de oferta de ônibus, no entanto, os engarrafamentos provocados pelo excesso da frota de ônibus em horários de pico, causam mais problemas à circulação e agrava o trânsito, além de alongar em muito o tempo de viagem. Em resumo, o excesso de oferta é o problema. Mas a operação deveria ser ajustada à demanda.

#OxeRecife – Além do excesso de automóveis, qual a outra causa do nó no trânsito do Recife?Stênio – Tem a ver com a tecnologia. Na metade final da década de 90, implantamos semáforos com um pouco de “inteligência” desenvolvidos por uma empresa local, em substituição aos semáforos “burros” da década de 1960. Houve um ganho real de coordenação e funcionalidade. Hoje, esses controladores estão arcaicos. Mas, uma boa notícia. Empresas brasileiras e do Recife já têm controladores de tráfego inteligentes. Têm câmaras que contam a demanda de tráfego, programam os ciclos e ainda informam aos semáforos seguintes para se ajustarem ao tráfego. É uma tecnologia usada em grandes centros como Nova York. E esse é o nosso futuro.

#OxeRecife – A questão da lentidão dos ônibus, tem a ver com a precariedade do sistema de transporte ou com o excesso de carros nas ruas? Abrir novas vias resolveria?
Stênio –
Abrir novas vias não resolve o problema. Automóveis são como um gás. Quanto mais espaço se conceder, mais eles o ocupam. Talvez a prefeitura devesse investir em construir mais pontes. Essas sim, são o gargalo. Acho que mais umas dez ou doze pontes e pontilhões iriam melhorar o trânsito.

#OxeRecife – Onde entram as bicicletas, para contribuir com a redução do congestionamento no Recife? Em alguns  países, elas foram a solução.
Stênio –  
Sou ciclista há mais de 12 anos e todas as vezes cobro a implantação de ciclofaixas e ciclovias na RMR. Nossa região é uma planície o que facilita em muito a circulação não motorizada. O maior argumento de alguns é que as ruas não foram projetadas para compartilhar o trânsito comum com ciclistas. Sugerimos em vários debates o emprego de faixas de rolamento mais estreitas. Por exe exemplo, a Avenida Agamenon Magalhães foi projetada e construída usando um padrão de rodovias o que significa 3,50 m de largura por faixa de rolamento. Na pista central nos dois sentidos são 4 faixas de rolamento com 3,50 metros o que totaliza 14,00 metros. Reduzindo em meio metro cada faixa de rolamento, teríamos então: 4 faixas de 3,00 metros = 12,00 metros, mais uma faixa de 2,00 metros. Total = 14,00 metros. Na divisão do uso do espaço teríamos então: uma faixa exclusiva para ônibus com 3,00 m à direita, mais 3 faixas de 3,00 m para o tráfego geral = 9,00 m e uma faixa de 2,00 metros para bicicleta. A solução do estreitamento melhoraria os níveis de segurança do trânsito. Só pra exemplificar a Avenida Domingos Ferreira tem em cada lado 3 faixas de 2,90 metros de largura cada. O estreitamento de faixas pode ser aplicado em todas as vias em placas de concreto: Av. Recife, Mascarenhas de Mores, Av. Abdias de Carvalho, por exemplo.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Letícia Lins e Divulgação

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