Horas, trabalho e alimentos perdidos

É mesmo muito triste o que está acontecendo no Brasil. Penso que o que vem sendo jogado no lixo – aves, suínos, verduras e frutas, milhões de litros de leite – daria para alimentar boa parte da população que vive com fome. Também é desanimador ver cenas como as que vi hoje, no Recife, com filas ocupando quarteirões em busca de um pouco de gasolina,  com carros até sobre as calçadas à espera de diesel, etanol ou gasolina. Pensem nas horas de trabalho perdidas, por milhares de pessoas que precisam do combustível para realizar suas atividades: entregadores, vendedores, taxistas, motoristas de aplicativos, de vans escolares.

Hoje, como sempre faço, fiz todas as as pequenas tarefas – banco, pagamentos, compras miúdas, farmácia – durante minha caminhada matinal. É verdade que com essa crise nos combustíveis, ela tem sido bem maior. Andando, passei por três postos de gasolina, todos na Avenida Dezessete de Agosto, entre os bairros de Apipucos e Casa Forte. No primeiro, da Petrobrás, a fila subia pela Rua Mandacaru e da esquina ao lado do posto, não dava para ver o o seu fim.  Nem calçada era respeitada, e tinha gente com criança no braço, andando pelo meio da rua. A gasolina tinha acabado, mas a chegada de um caminhão, já estacionando e abastecendo as bombas era comemorada com festa pelos cidadãos.

Um pouco mais adiante, a fila era imensa, em um posto Shell, onde se aguardava a chegada de um caminhão tanque a qualquer momento. Havia pessoas que viraram a noite, esperando gasolina que, pelo visto, está ficando mais importante do que água. Por volta de oito da manhã, as filas já não eram duplas, na faixa no sentido cidade-subúrbio. Eram triplas: duas de carros e uma de motos. E seguiam pela Rua Piauí, chegavam à Oscar Ferreira e iam até a Estrada do Encanamento. Foi preciso que agentes da Cttu disciplinassem o trânsito. Um caminhão tanque trafega, e os cidadãos gritam como meninos em parques de diversões que vêm um palhaço chegando: “lá vem ele, lá vem ele”. Não vinha. O destino do caminhão era outro, mas o motorista – que não tinha nenhuma culpa de  – foi xingado. Nem a mãe foi poupada. F.D.P ! vociferavam motoqueiros, na calçada.

Mais adiante, em um posto Dislub, a confusão era geral. Agentes da Cttu precisaram orientar os automóveis que vinham no sentido cidade-subúrbio, para que passassem pela faixa no sentido contrário, já que todas as outras estavam totalmente obstruídas. Já vi muitas coisas nesse país: ditadura, falta de estado de direito,  censura à imprensa, presidente roubar e cair, presidente roubar e ficar,  crise no abastecimento (no Plano Cruzado, lembram?). Mas o Brasil  parar completamente, ao ponto de ser obrigado a botar no lixo sua produção – incluindo alimentos – ah, isso eu nunca vi. Será que o Brasil pode se dar a esse luxo? Só falta agora Nicolás Maduro mandar buscar a comida que está sendo jogada fora, para abastecer as prateleiras dos supermercados da Venezuela, que estão vazias há muito tempo. E não é por culpa do preço do combustível.

Vejam, na galeria a seguir, algumas cenas que presenciei hoje, no Recife:

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Texto e fotos: Letícia Lins/ #OxeRecife

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