“Esplendor” e o cinema para cegos

Estive, há alguns dias, no Cinema do Museu, onde fui assistir o belíssimo Esplendor, que narra a paixão de uma cineasta pelas versões cinematográficas destinadas a deficientes visuais. Fiquei encantada com o esforço feito no Japão, para que a audiodescrição seja repassada às pessoas cegas, com  riqueza de detalhes que não as façam perder nenhuma cena do filme.  A produção , com roteiro e direção de Naomi Kawasw, fica em cartaz ainda  por duas semanas, na Fundaj. E mostra como é grande o cuidado na preparação do texto da audiodescrição, ouvido e testado antes por cegos, que funcionam como uma espécie de consultores  naquele País. Eles antecipam se o deficiente visual vai entender o filme: “O texto está muito subjetivo” ou “não está muito claro”, aconselham. E até sugerem mudanças aos responsáveis pelas projeções especiais, para que os cegos entendam perfeitamente o filme através do que estarão ouvindo.

Fiquei muito feliz ao tomar conhecimento que aquele belo trabalho é feito com dedicação rigorosa e muita seriedade , também no Brasil. Aliás, aqui no Recife. Para os que não sabem, está a pleno vapor o Projeto Alumiar, que oferece espaço de inclusão social e de cultura para pessoas com deficiências sensoriais. A iniciativa é do Cinema da Fundação, como é chamado o setor dedicado à Sétima Arte na Fundação Joaquim Nabuco, que tem duas salas de cinema: uma em Casa Forte e outra no Derby.  Vejam só que notícia boa, motivo de comemoração para quem precisa e de aplausos por todos nós: o Cinema da Fundação é o primeiro do Brasil a tornar acessíveis filmes nacionais com três modalidades de acessibilidade comunicacional, assim como a exibi-los regularmente em sua programação. A iniciativa acontece um vez por mês.

Na terça (22), foi dia de Carlota Joaquina, de Carla Camuratti (1995), que narra a fuga da família real ao Brasil, fugindo de Napoleão. “As sessões especiais contam com Audiodescrição (AD) para pessoas cegas ou com baixa visão; Língua Brasileira de Sinais (Libras) para pessoas surdas, e Legenda para surdos e ensurdecidos (LSE)”, explica Ana Farache, Gestora de Cinema da Fundação. Ela é a idealizadora e coordenadora do Projeto Alumiar. A iniciativa é resultante de parceria entre entre a Fundaj, TV Escola e Ministério da Educação. E é válida pelo prazo de um ano. Período  em que “o projeto irá tornar longas-metragens brasileiros acessíveis, selecionados mediante uma curadoria que prioriza a qualidade cultural e artística da obra”, diz ela. Depois de exibidos no cinema, os filmes são disponibilizados na TV  Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos).  “O Alumiar destina-se, também, a estudantes, profissionais e pesquisadores da área da acessibilidade, produtores de audiovisual, estudantes de artes visuais e o público em geral”, afirma a Gestora.

Além de colaborar para a formação de um novo público a partir da inserção de pessoas com deficiências sensoriais no universo do cinema, a ação inclusiva cria um canal de diálogo com profissionais da acessibilidade. “A ideia é que as sessões se tornem um espaço de discussão e avaliação do modelo de acessibilidade aplicado aos filmes, com debates e pesquisas realizadas entre público e especialistas. O projeto visa ainda a realização de seminários e cursos sobre acessibilidade no cinema”, explica.  A cada filme, as pessoas cegas ou com baixa visão recebem o programa da sessão em braille. Além disso, para facilitar o reconhecimento dos espaços do Cinema do Museu e do Derby, foram construídas duas maquetes táteis que representam, em detalhes, o conjunto de ambientes mobiliados que compõe os cinemas.

As legendas de orientação e descrição das maquetes estão acompanhadas de caracteres em braille. Já os surdos assistem aos filmes com a iserção, na tela, da linguagem de sinais. E essa conversão, digamos assim, não dá pouco trabalho não, também no nosso país. Para vocês terem uma ideia, só Carlota Joaquina mobilizou  equipe de acessibilidade de nada menos de oito pessoas. Na audiodescrição (AD), trabalharam três, só no roteiro; uma na narração e outra na consultoria (aquela, tão bem descrita e vivenciada no filme Esplendor).  Na Língua Brasileira de Sinais (Libras), a equipe tinha uma pessoa  (tradução e interpretação), outra na consultoria e uma última trabalhou na Legenda para Surdos e Ensurdecidos (LSE). Trabalho lindo, não é não? Não é à toa, portanto, que Esplendor trate do assunto com tanta sabedoria e delicadeza. E viva ao cinema para todos!

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação

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