Praça Fleming e o Recife sem memória

Hoje foi dia de mais uma daquelas deliciosas Caminhadas Domingueiras, comandadas por Francisco Cunha, e da qual participaram mais de 60 pessoas.  Eu, inclusive. Passeamos por diversos estilos da arquitetura de nossa cidade. Mas, nesse domingo, vou me limitar ao ponto de partida, a Praça Fleming que, pelo que vimos, transformou-se em mais um daqueles exemplos de um Recife sem memória. Sim, porque a Praça Fleming – localizada no bairro da Jaqueira – tem história. Foi foi um marco da arquitetura e se  preservada, poderia ter sido transformada “em uma referência mundial” do estilo modernista.

Pelo menos é o que nos lembra nosso cicerone, que é arquiteto, urbanista, tem trabalhos vários sobre o Recife e é um amante da cidade. Passo quase todos os dias caminhando por essa Praça. Mas não sabia de sua importância para a história de nossa arquitetura. E lembro dos tempos em que realmente ela era só tinha casas. Apesar de gostar muito de observar o casario antigo do Recife,  aquela Praça sempre me chamou a atenção, pela sua harmonia arquitetônica. Não sabia que todas as residências tinham a assinatura de Borsoi. Hoje, só restam duas ou três  casas das 26 que ele projetou, e apenas uma não foi descaracterizada. No século passado, ali  era um terreno imenso, pertencente ao Banco Hipotecário Lar Brasileiro.

Grupo de Caminhadas Domingueiras marca Praça Fleming como ponto de partida de passeio sobre arquitetura modernista 

 

No início da década de 1950, a instituição financeira chamou o arquiteto carioca para desenvolver projeto para um conjunto de residências. Eram 31 lotes, nos quais foram construídas 26 casas e uma praça. Ao contrário do que ocorria em condomínios, Borsoi não fez tudo padronizado. “O arquiteto buscou combater a homogeneidade usual de projetos de casas em série, através de soluções criativas, utilizando o mesmo tipo e diferentes modelos arquitetônicos”, afirmam os arquitetos Izabel Amaral e Guilah Naslavsky em texto sobre a Praça Fleming, agora inteiramente tomada por espigões e portanto, com seu passado perdido na memória de antigos moradores.

“O Conjunto da Praça Fleming encontra-se hoje totalmente destruído, restando apenas poucos exemplares com as características originais”, dizem os dois  arquitetos na pesquisa sobre o local,  que  foi contemplado com o conjunto de residências modernistas em 1954. Nos últimos 20 anos, no entanto, como é comum no Recife, as casas que poderiam servir hoje como “referência mundial” (como ressalta Francisco Cunha) desapareceram, para ceder lugar a espigões. A Praça propriamente dita felizmente não está destruída. Ao contrário, conta com carinho dos moradores, que se organizaram para bancar a manutenção e conservação. Se não fosse assim, quem sabe, estaria em situação igual a de centenas de outras no Recife, totalmente entregues às baratas. Ao longo da semana, darei novas informações sobre nossa divertida e instrutiva caminhada.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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