“Destruir pista de skate é ignorância”

Usuário da pista de skate do Parque Santana, o engenheiro Vicente Simoni acionou o Ministério Público de Pernambuco contra a demolição do equipamento, e questionou o investimento de R$ 600 mil na construção de uma nova, anunciada pelo poder público. A obra gerou muita polêmica, inclusive aqui no #OxeRecife, com grupos contra e a favor da iniciativa. Vicente lembra que o Santana precisa de reparos em outros equipamentos (como os banheiros) e calçadas do entorno. Ele mostra que a demolição não se restringe apenas à questão de pedra e cal e que ela enterra anos de esforço e aprendizado ali efetuados.

“Destruíram a pista e, com ela, o esforço enorme de cada skatista em construir suas linhas”, afirma, sem disfarçar a tristeza.  “Cada pista gera alguns percursos clássicos e outros bem particulares, função do skatista”, diz . E lamenta: “ No meu caso, foram mais de três anos de aprendizado, tentando conhecer todas as particularidades do bowl do Santana, destruídos junto com a pista em poucas horas de máquinas pesadas e muita ignorância sobre o tema”. Para o skatista, “a pista ficará para sempre na memória, foi destruída de forma inexplicável em pleno uso”. E ratifica ser um “desperdício” o investimento, até porque a pista tinha características diferentes de todas as outras do Recife.  Por esse motivo, deveria ser mantida, segundo ele e outros skatistas ouvidos pelo Blog. Alguns chegaram a divulgar vídeo nas redes sociais, apelando para que a pista fosse preservada.

Destruição de pista em poucas horas foi lamentada por skatistas e comemorada por outros.

O engenheiro lembra que, em bowl como o de Santana, cada skatista tinha uma “linha” na cabeça, algumas “bastante demoradas para aprender e dominar, até andar com fluência”.  Destaca que “em um bowl (piscina) tipo snake (trajetória na pista que lembra uma serpente), cada inclinação e cada parede é aproveitada por um certo tipo de impulso ou manobra, específicos daquele trajeto ou percurso”. Ressalta  que cada bowl tem vários pontos de entrada “que são como a impressão digital da pista” e que “não existem dois bowls iguais, pois  as conexões e níveis da pista definem onde, por exemplo, se ganha mais velocidade para entrar ou sair e que manobras realizar”. Vicente afirma que cada linha criada em uma pista de skate é única. “Cada skatista desenvolve sua linha de forma particular, em função da própria pista”.

Ratifica: “Cada linha é fruto de um grande esforço, com muitos erros (alguns bem dolorosos), até se acertar todo o percurso”. Ele argumenta: “Por esse motivo, destruir uma pista é tornar inútil o esforço de vários skatistas em construir suas linhas”. E completa: “Nunca vi dois skatistas andarem do mesmo jeito, pois mesmo seguindo a mesma linha, cada um projeta o corpo e ganha velocidade de uma maneira diferente, com um número infinito de combinações”. Depois, ratifica: “Acho que esse é  um dos sentimentos que mais gera indignação na gente, pois nos esforçamos muito para conhecermos da melhor forma cada entrada, saída e transição do Santana”.  Outro usuário, Leo Zeba – que inclusive acionou o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – voltou a lamentar a destruição da pista de skate do Santana. “Em uma cidade onde não se pode surfar nas ondas da praia por causa do tubarão, a pista era ótima para a prática de surf skate”, ironizou. A Prefeitura divulgou nota dizendo que discutiu o projeto em reunião na terça. Só que os trabalhos começaram na quarta, menos de 24 horas após o encontro. “Não houve discussão e sim apresentação do que estava decidido”, diz Zeba.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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