Livro revela segredos da guerrilha

As histórias, depoimentos, vivências dos anos de obscurantismo, pós 1964, nunca se esgotam. E quem participou das guerrilhas, formadas por jovens idealistas que pensavam em derrubar a ditadura com a luta armada, sabe disso. O depoimento da vez é do psicólogo Dagoberto Alves Costa, 74, que passou 52 dias no “campo de batalha” e, depois, 690 dias na prisão, após ser capturado pelas Forças Armadas. Chegou a ser torturado, como era comum naquela época.

Dagoberto hoje faz uma espécie de autocrítica sobre a luta armada da qual participou, junto com pessoas  então tão inexperientes quanto ele, na  chamada Guerrilha do Araguaia (1972-1975). “O fato é que não havia a mínima estrutura para a guerrilha. Uma coisa é contar com a massa camponesa. Outra é transportar estudantes dos centros urbanos, sem treinamento, sem logística, para uma região selvagem”, reconhece. Ali, na região conhecida como Bico do Papagaio (área de 15.000 quilômetros quadrados, entre os estados de Tocantins, Maranhão e Pará), ele diz que além de enfrentar o Exército, os guerrilheiros tinham que “lutar contra os perigos da floresta, os bichos, as doenças”.

Segundo Dagoberto, a precariedade da guerrilha foi sentida na pele por ele e por muitos de seus companheiros – na maioria estudantes universitários vindos dos centros urbanos, quixotescamente armados, sem treinamento militar nem conhecimento para sobreviver na selva. E ainda sem o apoio dos camponeses, que não se envolveram nas questões políticas. Os segredos eram tão bem guardados, que até a deputada Terezinha Nunes (PSDB) se surpreendeu com as revelações do marido.

”Pela primeira vez ele dá detalhes que eu nem sabia, porque sempre respeitei a decisão dele de não falar. É a primeira vez que um sobrevivente fala assim”, me confidenciou a ex colega de profissão. Todas essas lembranças estão no livro  Memórias do Araguaia – Depoimento de um ex-guerrilheiro, publicado pela Cepe Editora, e que será lançada no dia 8 de maio, às 19h, na Livraria Cultura do Paço Alfândega. Na obra, o autor conta com detalhes como entrou no movimento de luta armada idealizado por militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Para os mais jovens, uma explicação: naquela época, o PC do B era um partido proscrito, e o simples ato de pertencer à legenda clandestina era tido como subversão. O PC do B pretendia derrubar a ditadura vigente com o apoio dos camponeses, para  implantar no País um governo socialista como o que existia em Cuba e na China. Naquela época, os dois modelos eram endeusados pela jovem esquerda brasileira.

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SERVIÇO

Lançamento do livro Memórias do Araguaia – Depoimento de um ex-guerrilheiro (Cepe Editora)
Quando: 8 de maio, terça-feira
Horário: a partir das 19h
Onde: Livraria Cultura do Paço Alfândega
Endereço: Rua Madre de Deus, s/n, Bairro do Recife
Preço do livro: R$ 30 (livro físico) e R$ 12 (E-book)

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação

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