A justiça é para todos?

Confusa, a situação do País. Onde quer que se chegue aqui no Recife, a conversa é sempre a mesma: a ordem judicial da prisão de Lula, e suas eventuais consequências. Nas ruas, na aula de Pilates, na praia, é só o que se fala. Aqui em Pernambuco, a Polícia Rodoviária informa sobre interdições nas BRS 428 (em Santa Maria da Boa Vista, no Sertão). E também na 101 (Escada e Goiana), na 232 (Moreno, na Zona da Mata. No Brasil, foram 37 bloqueios em rodovias. Quase todas lideradas pelo MST, contra a prisão do petista. Na Avenida 17 de Agosto, em Casa Forte, carro de som convoca população para ato público de protesto “contra o golpe“ em curso “contra a democracia” e “patrocinado pela Globo”. A concentração, segundo a convocação, está programada para a noite dessa sexta-feira, na Praça do Derby.

No WhatsApp, muitas discussões. Uns contra, outros a favor, gente sendo expulsa de grupos específicos, por conta de posições políticas. Ou por “sair do foco”. Vi confusões desse tipo em pelo menos quatro, dos grupos que faço parte. É impressionante como as consequências da Operação Lava Jato dividem o país. Tem quem já votou em Lula, e diga que não vota mais nunca, porque o ex-Presidente não passa de um “ladrão”. Para outros, ele é apenas uma “vítima de golpe”. Na praia de Boa Viagem, enquanto tomo banho de mar, fico ouvindo as conversas. “Lula é um herói, saiu com fome do Nordeste e chegou a Presidente, só voto nele”, afirma um aposentado, beirando os 70. “Isso de que ele roubou é invenção”, acrescenta, sem lembrar que um político julgado por um colegiado fica enquadrado na Lei da Ficha Suja.

As discussões são sempre acirradas. No mar, português residente no Brasil, responde ao idoso, afirmando que “Lula não foi um bom exemplo” porque “abusou do poder”, apesar de ter “feito um governo interessante”. Uma banhista afirma que a falecida mulher de Lula, Dona Marisa Letícia, estaria “viva”, gastando o dinheiro que ele juntou no exterior. É muita história, imaginação de sobra. Ao meu lado, uma dona de casa diz que votou em Lula em todas as campanhas presidenciais. “Mas não voto nunca mais. Meu candidato agora é o maluco do Bolsonaro, que ainda não é ladrão”. Saio de perto, nado um pouco, vou respirar. Praia é para relaxar, mas ouvir que alguém vai votar nesse cidadão, até dá início de estresse pelo temor por um futuro ainda pior.

Fico pensando naquele ditado, “a gente colhe o que planta”. Infelizmente, desde os tempos do mensalão, que a confiança nas principais lideranças do PT começaram a minar, para grande parte da população. Inclusive para muitos que, via PT, esperavam um país melhor.  Discussões processuais à parte, até hoje continuo sem entender a atitude de alguns deputados que votaram pela saída da então Presidente Dilma Rousseff. Mas que, apesar de tantas evidências de malas pretas cheias de dinheiro, votaram a favor de Michel Temer. Nem sequer tiveram a coerência de entregar seus cargos de ministros, quando a crise de ética se agravou para os lados do Planalto. Dá para entender?

Tem gente que não acredita que Temer cairá nas garras da justiça, quando sair da presidência.  Prefiro acreditar na justiça, e no preceito de que a lei é  para todos, inclusive para políticos e empresários que não honram a ética e a honestidade, e assaltam os cofres da Nação. É esperar para ver. A julgar pelo que a gente  acompanha via noticiário, são muitos políticos com culpa no cartório. E não são só do PT. É não votar mais em ninguém desse tipo, para que percam os foros privilegiados da vida. Quanto a Lula, é uma pena o que acontece com um homem com a sua história e que, hoje, poderia ser o nosso herói. Nunca esqueci uma frase que, como repórter, o ouvi dizer muitas vezes, antes de chegar à presidência: “Eu não tenho o direito de errar”. Confesso que teria ficado muito feliz se ele agora estivesse colhendo apenas bons frutos do roçado que plantou.

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação / PCR

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