Pedras nada portuguesas no Recife

No mês de outubro de 2017, estive no Largo do Rosário, acompanhando um passeio a pé do Projeto Olha! Recife. Havia ido visitar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, templo localizado no bairro de Santo Antônio, e que começou a ser erguido no século 17, com grande importância histórica por ter sido a única igreja aberta aos escravos, nos tempos coloniais.

Chegar até a Igreja, no entanto, foi uma dificuldade. A Rua do Rosário, que é destinada a pedestres, estava cheia de buracos. Eram muitas as pedras portuguesas  soltas e as falhas grandes não só naquela via, como nas ruas vizinhas. A Igreja é uma das atrações turísticas do Recife. Não só pelo seu barroco, mas também pela sua história. Contam até que teria sido ali, que surgiu uma das manifestações culturais mais marcantes do nosso estado, o maracatu.

Falhas no revestimento de pedras portuguesas foi reparado com cimento, no Largo do Rosário, Santo Antônio.

Agora, deixar os seus arredores naquele estado  é um desrespeito aos recifenses, e uma forma de afugentar os visitantes. No dia 11 de março, retornei ao local, dessa vez integrando um grupo das chamadas Caminhadas Domingueiras, comandadas pelo amigo Francisco Cunha. Observei que as falhas haviam sido reparadas. Porém sem recomposição do traçado original de nossas pedras, àquela altura nada “portuguesas” e complementadas grosseiramente com cimento. Pelo menos, o conserto deixa o pedestre longe do risco de queda (uma amiga minha torceu a rótula, porque a tira da sandália enganchou em uma pedra “portuguesa” solta, e passou um mês no “estaleiro”).

Ao ver o “reparo”, durante a caminhada de domingo, fiquei um pouco triste, e pensando como é tão fácil degradar uma cidade assim. É de remendo em remendo mal feito que o nosso Recife vai perdendo seus encantos.  Nossas calçadas e passeios públicos de pedras nem de longe lembram as originais portuguesas, que são bem assentadas, polidas e não soltam tanto quanto as nossas, brasileiras. Ops… recifenses. Quando isso acontece lá, elas são devidamente recolocadas em seus devidos lugares e não substituídas por remendos de concreto. O que todas as pessoas dessa cidade esperam é que nossos gestores tratem o Recife com carinho, sensibilidade e mais amor ao seu patrimônio não só arquitetônico, como o natural. É tudo que nossa cidade precisa.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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