O medo do “tubarão” da areia

Eu realmente não tenho o que fazer. O dia amanheceu feio, chuvoso, a terra molhada. Mesmo assim, zarpei para Boa Viagem, meu destino sagrado, aos domingos. Sabia que a maré estava enchendo, que ficaria alta lá para as dez horas. Mas quem resiste a um mergulho nesse Recife, com cara de praia, sal e sol, mesmo com o céu nublado?

E lá fui eu. Tubarão? Ninguém pensa nisso. O mar estava com ondas fortes, algumas quase derrubando os banhistas na areia, mas ninguém falava no risco do peixe. Só perguntavam: o mar está enchendo ainda? Ou seja, ninguém queria maré alta, porque todo mundo estava a fim mesmo era de ficar na água. Como eu.

Conversa vai, conversa vem – sempre aparecem homens, mulheres, jovens ou idosos para falar da vida ou da praia mesmo – e aí, quando saio do mar, duas desconhecidas que entraram na roda de conversa descontraída já estavam se achando minhas amigas. “Letícia, a gente vai andar, e deixar as bolsas com você”. Respondi: “Deixem não, que daqui a pouco vou embora”. Pelo visto, as duas desconhecidas tinham mais temor do “tubarão” da areia do que o do mar.

Elas foram caminhar, carregando suas bolsas, cangas, sandálias.  Realmente, não gosto de pedir que tomem conta de minhas coisas. Mas me ofereço para tomar de pessoas conhecidas, quando estou à toa, ou lendo na barraca. Mas tem banhista que abusa demais. Semana passada, um cidadão deixou sandálias e uma bolsinha ao meu lado. “Pode dar uma olhadinha? São só dez minutos”. E passou mais de uma hora na água. Pode? Aí fui mergulhar, e  o homem ficou de cara feia para mim. Pensei: ele deve estar chateado porque não estou como “segurança” dos seus pertences. Então, descobri a melhor “senha” para evitar esse tipo de abuso: “Já estou saindo”.

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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