As torres do Barão e Rapunzel

Quem foi ao passeio do Olha! Recife na manhã de hoje – saindo do Parque da Jaqueira – não perdeu  oportunidade de conhecer melhor o Solar Barão Rodrigues Mendes, onde funciona a Academia Pernambucana de Letras. Totalmente restaurado, ele reconstitui o ambiente em que viviam as famílias abastadas do século 19.

O casarão fica na esquina da Avenida Rui Barbosa com a Malaquias, no bairro das Graças. Lembro-me que quando criança, estudando no Colégio das Damas, não parava de contemplar aquele belo imóvel. Mas recordo, também, que no início da minha adolescência, ele estava tão abandonado que seu amplo terreno chegou a ser usado como vacaria. Nós, que morávamos para essas bandas, íamos lá comprar  leite fresco.

Dia desses, em caminhada com o Grupo MeninXs na Rua, pela rota de velhos casarões, caminhantes da minha geração também lembravam da época que iam lá com canecas, tomar leite “no pé da vaca”, como se dizia no passado. Felizmente, o destino da casa mudou, após sucessivos e cuidadosos comandos da APL, sobretudo de mulheres, como Fátima Quintas e Margarida Cantarelli, que lhe dedicaram um zelo como se  o solar fosse suas próprias casas. Vale a pena visitar o casarão, com paredes recobertas de azulejos portugueses, piso de mosaico inglês e a mobília usada pela aristocracia da época.

Para os que não sabem, o casarão foi comprado em 1863 por Mendes, então um próspero importador de bacalhau, que posteriormente receberia o título de Barão. Além da arquitetura e de ser tão importante quanto um museu, o prédio da APL acumula histórias. Uma é a versão segundo a qual, uma vez viúvo, o Barão desinteressou-se do mundo. Delegou todas as tarefas a genro e filha e recolheu-se no alto de uma torre, ainda hoje de pé no meio dos jardins. É como diz meu amigo, escritor e imortal Cicero Belmar: “Há histórias reais que fazem inveja ao que se cria na Literatura”. A torre do Barão me remete a Rapunzel, o conto de fadas popular, recolhido pelos Irmãos Grimm, que o publicaram pela primeira vez em 1812. Só que enquanto a jovem de cabelos cor de ouro foi aprisionada pela maldade de uma bruxa, o barão o fez de forma voluntária. E por amor.

Leia também:
HQ na Academia Pernambucana de Letras
Na rota dos barões, barroco e baobá 
Olha! Recife faz roteiro dos poetas
Na rota dos velhos casarões
Carlos Pena, dos “desejos presos” na APL
Na trilha dos barões e imortais
Cícero Belmar a caminho da Academia
Cícero Belmar agora é imortal

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação/ PCR

Compartilhe

2 comentários

  1. Pertenceu aos meus antepassados, assim como os velhos casarões doados as freiras que fundaram o Colégio das Damas Cristãs, inclusive onde hoje foi erguida a capela existia um prédio muito antigo último reduto da Barão de Casa Forte

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *