“Você sabe com quem está falando?”

“Você sabe com quem está falando?” Essa frase remonta o tempo do coronelismo, quando eram os economicamente  poderosos que mandavam na Justiça. As coisas, felizmente, estão mudando. Mas – a julgar pelo que a gente vê por aí – a prepotência ainda persiste. Me espelho por depoimentos de guardas de trânsito sobre a forma como são tratados por motoristas selvagens, nas ruas do Recife. E também por atitudes de certas certos motoristas que não têm o menor respeito por pedestres e ciclistas. E que acham que a lei é só para os outros.

Uma vez, estava aguardando o carro no estacionamento de um conhecido restaurante do Recife, quando chegou uma mulher (que devia ter gasolina na cabeça) e quase bota seu possante por cima de todo mundo.  Nós, eu e um montão de gente, reclamamos. Ela dá a chave ao manobrista, se dirige ao nosso grupo, e faz uma emenda pior do que o soneto. “Aqui (a entrada do restaurante) é lugar de carro”. Levou uma vaia, claro. Afinal, qual é a coisa mais importante, o “lugar do carro” ou a vida das pessoas?

A última aconteceu neste final de semana, quando o ciclista Alan Castro foi atropelado na Via Mangue, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife. Era um grupo grande, que vinha treinando naquela via, quando um deles foi atingido por um carro. O ciclista caiu do lado do automóvel, mas ainda bem que não foi arrastado pelo atropelador. Mas sua bicicleta foi. Segundo testemunhas, por mais de 100 metros. E se ele não tivesse conseguido se desvencilhar da bicicleta? Teríamos uma tragédia. Felizmente não aconteceu. Mesmo assim, a vítima precisou de hospital e cirurgia. O fato de não ter sido arrastado em nada reduz a responsabilidade do causador do acidente, um motorista visivelmente embriagado. Segundo a polícia, não conseguia nem pronunciar as palavras direito. Falava tudo engrolado. No entanto, um áudio divulgado em redes sociais por um ciclista que testemunhou o acidente, mostra como motoristas irresponsáveis ainda têm muito que aprender no quesito ci-vi-li-da-de. No áudio, um dos amigos de pedalada da vítima, faz apelo desesperado para evitar que o crime fique impune, enquanto se dirige à delegacia.

“O rapaz (motorista) que está completamente embriagado, está dizendo que conhece muita gente. A mulher que estava com ele, também totalmente embriagada, disse que trabalha no Tribunal de Justiça”, desabafa. E conclui: “Enfim, ele está achando que pelo conhecimento que tem vai se safar. Desacatou policial, foi algemado, está totalmente fora de si”.  Diante da atitude do motorista, o amigo da vítima pede apoio “de alguém que possa nos ajudar”, que seja ligado à justiça, para o causador do acidente ter a punição devida, longe de qualquer jeitinho daquele que os brasileiros, infelizmente, passaram longos tempos a ver. No áudio, o ciclista alerta para um fato: o motorista estava fora de si, embriagado, mas pelo “conhecimento que tem”, o causador do acidente acha que vai “ficar impune”.   E prevê:  “O grande problema da gente pode ser a impunidade”.  E afirma: “ninguém quer passar por cima da lei”. Ou seja,  quer apenas que a lei seja a-pli-ca-da. Será que é tão difícil?  É acompanhar, pressionar, cobrar justiça. Cadê as blitzes da Lei Seca?

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação

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