Mais 19 anos sem saneamento. Pode?

Na Semana da Água, a Região Metropolitana do Recife não poderia receber notícia pior, totalmente  inadequada para quem entrou no século 21. Aliás, inadmissível. Temos no Grande Recife, uma situação medieval, com dejetos sendo jogados diretamente aos rios e riachos, hoje transformados em canais. Ou melhor, em esgotos a céu aberto.  Pouco mais de 30 por cento dos domicílios de seus 15 municípios  possuem saneamento, mas o prazo para debelar esse tumor maligno na nossa natureza acaba de ser dilatado. É que desde 2013 teve início uma PPP – parceria público privada – entre a Compesa e a famigerada Construtora Odebrecht, que não deu certo, apesar do investimento prometido de R$ 4 bilhões.

Houve um pequeno avanço. O percentual de domicílios saneados subiu de 30 para  para 37 por cento, o que não é quase nada, ao longo de cinco anos. Posteriormente o contrato passou para a BRK ambiental, empresa canadense, com revisão do valor do convênio para R$ 6,7 bilhões. Quando foi anunciada a PPP, a informação era que esgoto vazando seria consertado em 24 horas. Mas ficou tudo do mesmo jeito. E porcaria rolando pelo meio das ruas e nas calçadas é só o que a gente vê, em todo canto. E o prazo para implantar saneamento na RM seria até 2025, quando 90 por cento das casas estariam contando com aquele tipo de serviço. Pois o prazo foi prorrogado, acreditam? Agora, o limite é 2037.

Canal do Parnamirim – que corta comunidades carentes e áreas nobres – virou uma massa espessa de dejetos orgânicos.

O Presidente da Compesa, Roberto Tavares, chegou a dizer que os consumidores não perceberiam as mudanças. “São alterações internas”, justificou. Claro que os pernambucanos não vão perceber nada, até porque na questão saneamento, está quase tudo do mesmo jeito. O pior é que essa notícia da dilatação de prazo foi divulgada como se esse adiamento fosse normal. Aceitável. Sinceramente… Isso é zombar com a paciência e a saúde da população. Porque ainda resta tempo demais – quase 20 anos – para que o Recife e os municípios que o cercam sejam servidos por um serviço que é direito de todos. Mas que, infelizmente, ao longo do tempo, nossos governantes, eleitos com os nossos votos, nunca lembraram disso. Pensam mais em viadutos que não levam a lugar nenhum, ou em transformar o Capibaribe em hidrovia, com o rio assoreado por excesso de despejos indevidos. Bola preta para todos que esqueceram do nosso direito ao saneamento básico.

E também para aqueles que prorrogam prazos para um serviço que devia ter sido ofertado ontem. E não depois de amanhã. Notícia péssima, totalmente inoportuna, para ser divulgada logo na Semana da Água. No Recife, a gente pega um barco e vê esgoto sendo despejado em todo o curso do Rio Capibaribe. E não é só partindo de favelas não. A gente vê isso nos chamados bairros nobres, como Apipucos, Poço da Panela, Jaqueira, Graças. Quando se passeia por alguns bairros, observa-se, também, que os canais – que um dia foram riachos – viraram, perdoem a expressão, merda pura. Olhem só a situação do Canal Parnamirim,  que corta comunidades como a Lemos Torres e também ruas de edifícios de luxo. Seu leito parece um asfalto, de tão espesso. É só fazer uma coleta, para examinar que água é essa. Virou latrina mesmo. E isso é normal aqui no Recife. Pode?

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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