O breu e a luz de Geraldo Maia

São quatro livros que mantenho, sempre juntos, em minha estante.  O Lado fatalPerdas e Ganhos (Lya Luft), Queria ver você feliz (Adriana Falcão) e Breu (Geraldo Maia). O de Lya é de 2003, escrito  quinze anos após  O lado fatal, quando ela chorava a morte da grande paixão de sua vida, Hélio Pellegrino, pelo qual deixara marido e filhos e com o qual mal teve tempo de curtir o amor. O de Adriana é de 2014, e narra drama familiar provocado pela depressão da mãe e pelo suicídio do pai. Já Breu (2016) traz o calvário que o também cantor vivenciou em sua infância, ao perder a mãe aos cinco.

Os  quatro livros, cada qual ao seu modo, abordam o amor, perdas, ganhos, superação.  O breu e a luz da vida. E também de marcas que demoram a apagar. Mas vamos falar de Breu, que será relançado na noite dessa quinta, às 19h na Passa Disco (Rua da Hora, 345, Espinheiro). Geraldo Maia – conhecido e bom cantor do Recife – faz sua primeira incursão literária. Quase como um poema, relata a infância, o impacto da morte da mãe, que sonhava em não morrer tão jovem (aos 43), para poder acabar de criar o filho. “Varreram a sala, onde havia ficado pelo chão, pétalas de flores, restos de velas. E um cheiro de morte que impregnou a casa por muito tempo”. Lembra que logo após o óbito, ele brincava de fazer enterros no quintal, usando caixinhas de fósforos, recheadas com pétalas.

Fala, também, dos encantos da infância, da companhia e dos passeios com o pai viúvo, que o levava, de ônibus, ao Aeroporto para ver a decolagem dos aviões. Mas conta as dificuldades que encontrava na escola, devido ao seu jeito mais terno do que o dos colegas, que o chamavam de “mulherzinha”. Também aborda o trauma, quando a professora praticamente o humilhou, dizendo para toda a turma que ele tinha “letra de mulher”. Lembra que “realmente caprichava na caligrafia, mas aquele elogio torto me marcou”.  E marcou tanto, que naquela noite ele não conseguiu dormir. Isso, no entanto, era só um “aperitivo” do que ainda estaria por vir, quando o menino foi seduzido, aliás, violentado por um vizinho.

“Melquíades me trancou no quarto dos pai. Jogou uns chocolates sobre a cama, e me disse que seriam meus. Não deu tempo de entender nada. Ele já apertava a mão contra a minha boca para que eu não gritasse”. Criava-se, em seguida, uma relação de dependência. “A engenharia dos encontros ficava sob controle dele”. Tudo isso contribuiu para uma mistura explosiva que consumiu anos de terapia. “Eu queria morrer, mas o suicídio não me animava enquanto ideia. Tinha medo de que a tentativa resultasse em fracasso”. Apesar do drama pessoal, Breu é escrito de forma leve, não cansa o leitor e além do declarado amor à mãe, é, também um exemplo de superação, pois apesar de todo breu, nunca é tarde para achar a luz no fim do túnel. Maia está aí, encantando a todos com sua luz e a voz suave do seu canto. Breu, eu recomendo. Na mesma noite e local será lançado, também, Sax Áspero, de Marco Polo Guimarães (poemas). Os dois livros ganham reedições  pela Editora Confraria dos Ventos. Vai haver pocket show, como tudo que acontece na Passa Disco.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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