“O Recife não cresce, incha”

Ao completar 481 anos, o Recife não consegue esconder suas mazelas. Na década de 1970, já dizia o sociólogo Gilberto Freyre, que o Recife “não cresce, incha”.  Naquele tempo, inchava mesmo. Mas desde então, a capital cresceu.  Mesmo assim, não só ainda “incha”, como também “cresce” para cima,  como um suflê. E o fato é que oRecife é considerada a vigésima terceira cidade mais verticalizada do Planeta. É só dar uma voltinha por bairros como os de Boa Viagem, Madalena, Casa Forte, Rosarinho e até mesmo Casa Amarela, para se observar o tamanho do estrago.

Ou mesmo dar uma olhada nas torres “gêmeas”, que poluem a paisagem antes tomada só por velhos telhados do tradicional bairro de São José. Hoje, quando se sobe em um prédio, praticamente não mais se vê o verde dos quintais de nossa infância, mas uma selva de concreto. Será que nossa cidade tem estrutura para tantos prédios?  Apesar dessa cara de “desenvolvimento”, o Recife enfrenta problemas incompatíveis com o século 21, como a falta de saneamento. No Recife, só 30 por cento dos domicílios possuem esse tipo de serviço. O resto joga dejetos em rios e canais (que um dia foram riachos), hoje transformados em esgotos a céu aberto.

Vacaria improvisada na comunidade do Pilar, uma das mais pobres do Recife, em plena área turística.

O déficit habitacional também é pesado. Segundo a ONG Habitat, na nossa cidade, nada menos de 280 mil pessoas moram em condições inadequadas. No último domingo, durante mais um passeio com o Grupo Caminhadas Domingueiras, passamos pela Comunidade do Pilar, que fica encravada no bairro do Recife (Antigo), uma das regiões turísticas mais visitadas da capital. E a situação ali  é muito precária. Mesmo ficando próximo a instituições de primeiro mundo,  como o C.E.S.A.R (na Praça Tiradentes) e o Porto Digital (em ruas como Guia, Apolo e outras).

Fica, ainda, perto da Prefeitura, de Secretarias de Governo  e órgãos federais, como a Receita. Há casas de materiais reaproveitados – zinco, pedaços de madeira, alvenaria precária – e o esgoto corre a céu aberto pela principal “rua” da comunidade, que vive praticamente de biscates ou pequenos negócios ali montados. Também observamos uma vacaria improvisada, no meio de um matagal, onde deveriam ter sido erguidos condomínios populares. Ali, naquele local, está uma pérola de nossa arquitetura religiosa: a igrejinha de Nossa Senhora do Pilar, datada de 1680, com abóboda revestida com raros azulejos portugueses. A comunidade reclama do atraso na entrega de prometidos conjuntos habitacionais para aquela área. Alguns já estão funcionando, mas outros ficaram pelo meio. O Recife será a primeira capital brasileira a completar meio milênio, o que ocorre em 2037. Para chegar lá com planejamento e de forma mais consistente, a Prefeitura e a Agência Recife para Inovação de Estratégias (Aries) estão desenvolvendo o Plano 500 anos. Informam que a população está sendo ouvida. A primeira etapa foi apresentada hoje, no Recife. Depois, falamos mais desse assunto, que hoje é dia de festa. Apesar dos nossos problemas sociais.

Leia também:
Comunidade do Pilar ganha musical
Praça Tiradentes é exceção da regra
Um passeio pela história do Recife
Atentado estético no Boulevard

Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

Compartilhe

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *