“O melhor guarda de trânsito do Recife”

Onde tem um nó – seja em ruas ou avenidas –  ele está lá. Como ando muito a pé, sempre cruzo com Adeildo do Nascimento Barros no meu caminho.  Só em 2018, já o encontrei com seu apito na Avenida Norte, em Casa Forte e agora na Torre. Sempre o cumprimento, dizendo “viva o melhor guarda de trânsito do Recife”. Ele pensa que é brincadeira. Mas não é. Com 53, há 25 trabalhando na Prefeitura e há 18 atuando no tráfego, ele chama a atenção de pedestres e motoristas.

Primeiro, pela dedicação. Segundo pela forma enérgica como enfrenta condutores impacientes e apressadinhos. Dia desses, eu caminhava pela Rua do Futuro e passava na esquina com a Avenida Malaquias. Sinal aberto para pedestre, mas tinha motorista animal que não parava de buzinar, querendo cortar o sinal vermelho. Adeildo chegou junto, educadamente, bateu na janela do condutor, que baixou o vidro. Ele observou que não tinha gente doente, nada que caracterizasse emergência.  E afirmou: “Quem manda aqui sou eu”. Foi xingado pelo motorista. Mas todo mundo que passava pelo local bateu palmas para o guarda de trânsito, que continuou no seu trabalho, como se nada tivesse acontecido. Sequer queixou-se do homem mal educado com os pedestres que bateram palmas.

Mas Adeildo não se acha enérgico, apesar de botar moral para os indisciplinados. “Meu interesse é fazer o possível para que o condutor melhore”, diz. “Não me considero durão, só procuro ajudar o máximo”. ´É difícil, reconhece. Principalmente porque no Recife tem cinco tipos de motoristas que ele define, com conhecimento de causa. “Há o apressadinho, o impaciente, o indisciplinado, o estressado e o despreperado”. Ou aquele que tem quase todos esses defeitos. “Em Casa Forte, o cara vinha na contra mão, e quando reclamei, ele quase bota o carro por cima do meu pé”, relata. Acrescenta que o motorista ainda o xingou e fez ameaças: “Você vai perder o emprego, seu bosta”. Não tem palavrão que ele já não tenha ouvido.

Adeildo ouve desaforo todos os dias. Acha que faz parte do ofício, nem reclama dos insanos e ensandecidos.  Pensa que a rua poderia ser bem melhor, se os motoristas não fossem tão mal educados. “Chego em casa tão estressado, que minha mãe diz, meu filho, você está com uma cara horrível”, diverte-se. Ele considera as Avenidas Norte, Agamenon Magalhães, Caxangá e Abdias de Carvalho como os locais de trânsito mais complicado no Recife. “Mas a Avenida Dezessete de Agosto, em Casa Forte, está cada dia mais congestionada”. O trabalho dele é tão reconhecido que, dia desses, um colégio da Avenida Rui Barbosa fez um apelo à Cttu para que o guarda não fosse deslocado para outra área. E haja trânsito, gente que vai e vem, motorista impaciente, falta de educação e nó em cima de nó. “Se a senhora soubesse… é incrível o que acontece nas ruas. Acho que quando eu me aposentar vou escrever um livro”, diverte-se. Adeildo é quem, é gente.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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4 comentários

  1. Existe vários Adeildo, em nossa corporação. Eu mesmo já ouvi todos os tipos de desaforos e já sofri várias ameaças e duas tentativas de homicídio e mesmo assim não vou deixar de educar, repreender, notificar e até prender motoristas e até pedestres que não sabem nada de trânsito e odeiam os guardas do Recife. Infelizmente temos um dos maiores índices de motoristas indisciplinados e outros que são autênticos psicopatas no volante em nossa cidade. E que nos falta é mais valorização e reconhecimento com o cumprimento da lei do porte de arma dos guardas no qual já houve sete casos de ferimentos dos agentes de trânsito por armas de fogo e um óbito de um colega, a arma não nos dar poder e não torna aquele que usa imortal. Mas nós dar o direito de defesa contra marginais do transito. E pra aqueles infratores que recebem multas! Se não cometerem infrações não teríamos tantos guardas notificando e nunca esqueçam que estamos nas ruas para cumprir a lei e manter a ordem em uma cidade que possui um dos piores trânsito das Américas.

  2. Eu poderia dizer que esse sujeito dispensa comentários, mas nesse caso estaria faltando com a verdade. Esse guarda de trânsito não é um agente de Segurança Pública normal, há uma visível diferença que o destaca dos demais. O trânsito pode estar travado de uma a outra extremidade, um absoluto caos, mas é só esse camarada chegar no local que rapidamente as coisas mudam. Com muita habilidade e experiência ele desfaz os nós da melhor forma possível e o resultado é sempre um “alívio garantido”.
    É muito comum vermos as pessoas o cumprimentando e o elogiando nas ruas, mas como essa função é, por si só, ingrata, haverá sempre os xingamentos por parte de alguns condutores, faz parte.
    Deixo aqui o meu elogio ao administrador desse Blog pela excelente matéria, pela visão aguçada e por valorizar o trabalhador brasileiro, inserido em nosso meio mas que, na maioria das vezes, passa despercebido, devido a nossa correria do dia a dia e a falta de divulgação do órgãos que o gerenciam.
    E ao guarda municipal de trânsito Adeildo deixo um sincero abraço e o, mais que devido, agradecimento pelo serviço prestado aos cidadãos recifenses.

  3. Parabéns aos envolvidos no texto, à Letícia Lins pela excelente narrativa sobre nosso colega, e a Adeildo pelo profissional que é: dedicado, arrojado, e principalmente preocupado com o cotidiano de seu trabalho.
    Certa vez vinha eu transitando de moto na Av. Guararapes e ao chegar na Av. Dantas Barreto, desci da moto e a empurrei cruzando a via em direção à Praça do Diário, ele me interpelou educadamente informando que eu estava cometendo uma infração, eu agradeci ao mesmo e fiz o correto, quando estava saindo foi que tirei o capacete e o mesmo me reconheceu, mesmo assim reforçou sobre a penalidade que eu poderia sofrer .

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