“Me chama de lagartixa”

Eu sempre dizia para o meu saudoso amigo e quase irmão Paulo Medeiros que quem tem praia não precisa de analista. E que se todo mundo vivesse conversando no mar ou na areia, iriam falir os consultórios de terapia e psicanálise. É exagero, claro. Mas quem vai à praia, sempre retorna com a cabeça melhor do que lá chegou. O que acho engraçado é que você está sentada, lendo seu livrinho, e chega uma pessoa que você nunca viu – homem ou mulher – para conversar. Na areia, a senha é “que horas são?”. Ou “pode olhar minha roupa enquanto dou um mergulho?”No mar, a senha é  “ a água está boa, morninha” ou “o mar está enchendo ou secando?”

Hoje foi meu dia de “senhas” na areia. Estou lendo um livreto, quando uma moça me pede para colocar as coisas dela ao meu lado. “Pode colocar, mas já já eu vou tomar banho de mar”, respondo. “Então vamos juntas dar um mergulho”, diz. Eu respondo: “Vou depois”. E fico matando tempo. Quando ela sai da água, começa. “Posso sentar?”. E torna a conversar. Fala da vida, dos dois casamentos desfeitos, da necessidade da praia para desopilar”. Ela sai. Aí encosta ao meu lado uma senhora que fala mal do marido para todas as pessoas que encontra na areia. Ou no mar. Mas, mesmo assim, ela só chega na praia com ele. A senhora se posiciona ao meu lado, diz que está com crise de labirintite, e fica acenando da areia, para que o homem saia do mar. Quer ir embora.

 

“Preciso ir logo para casa. Minha mãe está doente, e estou cuidando dela, é tudo em cima de mim, um estresse”, afirma, sendo esta a primeira vez que ela não “descasca” o companheiro para mim., aparentemente bem mais idoso do que ela e sem atrativos físicos que desperte a atenção de outras mulheres. Lembrei, então, da primeira vez que ela me abordou para falar mal do marido. Quando ele apareceu, disse para mim: “Um velho feio desse, era para me tratar como uma princesa”. Eu tive que rir. Na água, no entanto, estava mais divertido. Eu me entrosei em uma roda de senhoras cinquentonas e sessentonas, e foram muitas histórias engraçadas. Ou trágicas como, por exemplo, a cujo marido perdeu tudo que tinha na jogatina.

Elas contavam as aventuras nas casas noturnas, as figuras que tentam uma “paquera” com as “coroas”, e a conclusão delas era que os homens são “interesseiros”, “enrolões”, e “não merecem confiança”. Mostraram como uma abordagem mal disfarça outros tipos de interesse, porque tem aqueles que se aproximam mas, na verdade, querem uma “namorada” que pague as contas da festa, do motel, e por aí vai. Por fim, elas foram classificando os tipos masculinos. Até que uma disse: “Bom mesmo, é aquele que tem pegada, que encosta a gente na parede, e a gente fala, me chama de lagartixa”. Caí na gargalhada, claro. Quando saio da água, com alguns lixos que recolhi  – papel laminado, saquinhos plásticos, canudinho – outra senhora me interpela na areia. “O Brasil não tem mais jeito, virou um lixo. Estão acabando até com a praia”, diz. “Meu marido faz como você, recolhe o que vê. Mas não recolho nada, porque fico revoltada”. Não entendi mais nada e fui para o Jardim Três, encontrar amigas verdadeiras, não apenas da areia da praia.

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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