A festa da Maria Mulata

Pouco após chegar em Cartagena, na Colômbia, um fato me chamou a atenção: a estátua de um pássaro negro e esguio,  na confluência da Carrera 51 com a Calle 79. Pouco depois, observei que esse pássaro negro – que me lembrou uma graúna – estava em todos os locais. A ave de olhos amarelos e corpo bem mais elegante do que uma graúna, está nas praças, nos parques, no asfalto, na beira da praia. Como gosto muito de animais, fiquei curiosa. Quis saber qual era o pássaro.

Descobri que tem um nome engraçado: Maria Mulata. Depois fiquei sabendo que Maria Mulata é alvo de muitas histórias. Dizem que não teme os humanos, que convive bem com eles e que é genioso. Não é agredido ou ofendido sem dar troco. Falam, também, que seu nome era só mulata. E que o Maria tem a ver com uma escrava rebelde, que não engolia desaforo. Lendas à parte, a ave despertou minha atenção.  E passei a observá-la pelas ruas da cidade. Um guia turístico chegou a dizer que o animal era endêmico naquela cidade colombiana, e que só ocorria ali. O que não é verdade, embora não a tenha visto em Bogotá.

Ela também ocorre em trecho que vai do Peru à América do Norte e marca presença nas praias do Caribe. É uma ave migratória de singular elegância, e maior que um pássaro comum.  O fato é que, pelo menos em Cartagena, a Maria Mulata está em todas. Vi muitos deles andando nas calçadas, comendo sementes em jardins, em calçadas de edifícios, andando na areia escura da principal praia urbana daquela cidade, Boca Grande. Pelo que percebi, a maria mulata urbanizou-se mesmo. Tomou gosto pela vida movimentada da cidade grande, e deixa que os humanos se aproximem dela, sem mostrar nenhum temor. Até canta quando a gente está perto, com seu trinado estridente, parecendo dizer, “ei, estou aqui”.

Passeava com meu neto Henrique pela calçada de Boca Grande, quando ouvi um canto estranho. Olhei para cima e adivinhem quem era: a Maria Mulata. Fiquei me perguntando: qual é o pássaro que é a cara do Recife? No meu bairro são as sabiás. Sempre as ouço por perto. E pelo canto, tanto aparece aquela da terra quando a que chamam de sabiá da mata. Lindas. E com o canto bem mais bonito do que o da Maria Mulata. Mas a Maria Mulata, ao contrário das sabiás, é alvo de lendas, de admiração e de histórias muitas, principalmente na Colômbia. Ou melhor, no litoral daquele país. Não é à toa, portanto, que o escultor Henrique Grau (1920/2004) tenha lhe dedicado uma estátua em ferro, que virou atração turística. Dizem que o artista era um apaixonado pela Maria Mulata. Tem brasileiro que até se surpreende, quando chega aos pés da estátua. Atraídos pela fama do escultor e pelo nome do monumento, estranham quando – ao chegar lá – descobrem que a Maria Mulata não é uma mulher de curvas sinuosas. Mas sim um pássaro negro, de porte elegante e grandes olhos amarelos.

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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