“Manga-rosa virou relíquia” no Recife

As mangas fazem a festa no verão. Pelo menos na Zona Norte, onde as fruteiras ainda existem em calçadas, quintais e jardins (caindo para as ruas) e até em algumas praças. Logo cedo, são muitas as pessoas, homens e mulheres, que andam com varas enormes, para colher as frutas. Elas são de todos. Democraticamente distribuídas. Pega quem quer. Pelos bairros de Casa Forte, Casa Amarela, Apipucos, Macaxeira, Poço da Panela, vejo de tudo. É gente levando manga na mochila, no carro de mão, no cesto pendurado no jumento, na carroça puxada pelo cavalo. Também há soldados recolhendo-as nos pátios dos quartéis. Servem para o suco ou para o  lanche. Como são importantes, as nossas mangas.

Quando o rio Capibaribe não era tão poluído, muita gente sobrevivia ou engordava a renda com peixes, crustáceos, moluscos. Sem essa opção, o jeito são as frutas que restam em áreas públicas, principalmente mangas. Muitas pessoas com as quais converso no meio das ruas, encontram nas mangas, que são obtidas a custo zero, uma forma de driblar o desemprego. Outras, usam a fruta para engordar a renda. Ewerton Paulo Cavalcanti Salviano é porteiro noturno em um prédio, na Praça de Casa Forte. Mora na comunidade de Serra Pelada, e hoje de manhã, logo após largar, nem foi dormir. Estava nas ruas, à procura das benditas mangas. “São tantas nas mangueiras, que o povo nem liga que a gente tire. Onde tem galho caindo pela rua, a gente pega e ninguém reclama”.

Ewerton sai do emprego de manhã e ganha as ruas, colhendo e vendendo frutas: “manga rosa virou relíquia”.

“Mas, às vezes, a gente pede aos donos dos terrenos e eles autorizam”, conta. Ewerton estava colhendo mangas em Apipucos, em um quartel da Polícia Militar, onde os frutos quase estão se transformando em problema, devido à frequência com que despencam nos carros estacionados.  Depois, sai empurrando o carrinho de mão com 200 frutos até Sítio Grande, entre Macaxeira e Casa Amarela, onde há muito comércio. As do tipo espada são mais frequentes.

“Tem dia que nem chego lá, porque as mangas ‘voam’ no caminho, porque todo mundo quer comprar” comemora. Anotem os preços das mangas de quintal: as do tipo espada custam R$ 5 (oito frutas) e as do tipo rosa são R$ 5( três frutas). Por que a rosa é mais cara? “Por que está virando relíquia”, explica Ewerton. Eu só gosto das de quintal, porque aquelas, cultivadas em escala industrial, do tipo Tommy, são totalmente sem graça. “São tão aguadas, que quem gosta são os diabéticos”, explica o porteiro. Vamos, pois, preservas nossas mangueiras, tanto em áreas privadas, quanto nos espaços públicos. Lembro que em Belém, onde elas são abundantes nas praças, à tarde via revoada de papagaios e jandaias, para comê-las.  Lindo, viu.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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