“Mexeu com a natureza, mexeu comigo”

“Mexeu com a natureza, mexeu comigo”. A frase deveria servir de lição para autoridades encarregadas de manutenção e poda das árvores do Recife, onde o arboricídio só faz crescer e inquietar a população com o futuro dos nossos espaços verdes. Mas me foi dita por um sertanejo, José Enoque Ferreira, que vende mudas de plantas nas feiras do interior. Ele negocia mudas de árvores nativas, fruteiras, ervas medicinais . Enoque cultiva as plantas no Sítio Bandeira, localizado em Tabira, cidade do Sertão do Pajeú.

Eu o encontrei na feira Afogados de Ingazeira, a 380 quilômetros do Recife, onde estive no final de semana. Afogados é vizinho a Tabira. “Fui nascido no Sítio, plantando, cultivando, farinhando e minha vida é essa. Não consigo ficar longe da natureza”, conta. “Meu prazer é fazer as mudas das plantas, vender, para que a terra fique cada vez mais verde”, diz Enoque, com sabedoria, entre o atendimento a um cliente e outro. Enoque chora quando vê notícias das mata devastadas na Amazônia, região que nunca foi e que nem sonha conhecer.

Enoque leva 80 caixas de mudas para vender nas feiras do interior e chora quando matas sendo devastadas na TV.

Mas cuja importância ele sabe bem, homem da terra que é e que vive do cultivo de árvores. “Eu fico tão triste com o que vejo no noticiário, que desligo a televisão, quando as toras ficam pelo chão. Desligo a TV, porque ver uma mata sendo destruída é de cortar o coração”. Ele tem outra preocupação: um certo costume dos sertanejos. “É a mania errada de tirar as “batatas” do umbuzeiro”. A árvore é conhecida como  o refrigério do sertão, já que o fruto é muito suculento e mata a sede do homem da caatinga, durante as secas prolongadas. As “batatas” são raízes desenvolvidas muito admiradas pelos sertanejos, já que fazem várias comidas com elas. Até compotas.

Mas Enoque se nega a fazer isso. “Moça, tem tanta planta que a gente pode comer, porque mexer com o umbu, uma árvore que guarda até mil litros de água, para se manter viva na seca?”, comenta, explicando que elas ficam armazenadas justamente nas “batatas”. Entre as mudas que ele vende, está a do umbu, a planta que ele gosta. Enoque leva  80 caixas de plantas para vender nas feiras. São mudas de fruteiras (carambola, jenipapo, goiaba, jabuticaba, pitomba, goiaba, graviola, café, romã, acerola, caju, limão, umbu, jaqueira, café, dendê).  Mas tem, também, mudas de árvores nativas, como ipê e jatobá. Também vende ervas medicinais. Ele já trabalhou na região canavieira, e lhe cortava o coração ver as as usinas desmatarem áreas de vegetação nativa, “para botar cana”.  Enoque é uma pessoa linda. É gente, é quem.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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