Zenilton: entre o rio e o baobá

Conhecer uma cidade é saber a sua história, desfrutar de sua arquitetura, dos seus aromas e, também, vivenciar o cotidiano dos seus personagens. Por esse motivo, dias antes da mais recente edição do Projeto Caminhadas Domingueiras, passei no Jardim do Baobá, para conversar com Zenilton José Parangaba, 66, que desde os 15 faz do Rio Capibaribe a sua razão de viver. No passado, diz já ter visto ali ali “muitos botos”, pesca generosa – camorins, carapebas, saúnas – e grande movimento no seu barquinho, que fazia travessia, levando operários para cotonifícios como o Capibaribe e o da Torre. As fábricas não funcionam mais. Porém restaram boas lembranças do tempo da fartura.

“O movimento era muito grande, pois fazia muitas viagens por dia, cada uma com dez pessoas”, conta. “Só não fiquei rico porque não soube investir”, completa, lembrando que, como o pai, sempre viveu do Rio. E um filho dele hoje faz a travessia no cais da Jaqueira até o outro lado. Cobra R$ 1 por pessoa. Zenilton diz que hoje só resta a tilápia no Rio, e que mesmo assim, a poluição lhe alterou o gosto. “Quando a gente pesca uma que vai comer, tem gosto de detergente”, reclama. “Antigamente, a gente pegava camarão, pitu, hoje quase não acha mais”, lamenta. “Infelizmente o homem acabou com tudo, o Capibaribe está quase morto, até fede”.

Conta, no entanto, que o que tem sido visto com muita frequência são os jacarés. “Houve um dia na semana passada que vi nada menos de oito. Acho que tem mais desse bicho agora”. Ele também vê capivaras andando pelas margens do Capibaribe, e até no Jardim do Baobá. “Elas gostam de comer grama, e aparecem de noite”. O jardineiro Valdemir Batista de Lima também já viu grupos dos mamíferos. Porém de não mais de cinco, de cada vez. O que é bom e é ruim. Bom, porque as capivaras sobrevivem, apesar da degradação do Capibaribe. Ruim, porque gregárias que são, um grupo com apenas cinco indica que, hoje, elas são muito poucas. Relata que há uns três meses a família de roedores não aparece no local. Os dois contam que elas ocorrem mais depois do entardecer.

Zenilton dá plantão, todos os dias, no Jardim do Baobá, à espera de pessoas que queiram conhecer melhor o Capibaribe. Ancora seu barquinho no píer, pensando nos turistas ou mesmo de recifenses que queiram ver a cidade a partir do rio. Para um passeio até a Ponte da Capunga ele cobra R$ 10 de cada pessoa. O barco também pode conduzir a outras áreas da cidade por preços a combinar. O roteiro mais solicitado é até o Marco Zero, no Bairro do Recife. Como o barco é a motor e consome combustível, esse passeio é R$ 150, mesmo que seja feito por um só passageiro. Mas como ele leva até oito, o preço fica em conta, menos de R$ 20 por pessoa. “O barco tem capacidade para dez, mas prefiro só levar oito mesmo”, diz. E há coletes salva-vidas, para os mais medrosos. Ou precavidos, se for o caso. Zenilton é quem, é gente da nossa terra.

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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