O dia em que esqueci que sou repórter

Esqueci que era repórter, ao receber a visita de José Luiz Passos, autor de O Sonâmbulo Amador, livro que havia lido há mais ou menos um mês. E não lhe fiz nenhuma pergunta sobre seu romance, que narra uma história em que perda e loucura se misturam.  É que quase não houve tempo de lhe indagar nada. Tudo por um motivo simples: Passos é o autor da matéria de capa do último número da Continente, revista cultural publicada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). Ele assina um texto sobre cartas trocadas por Osman Lins e as três filhas. Foram quinze anos de correspondência entre as meninas (que moravam no Recife) e o pai escritor (que residia em São Paulo).

Ele solicitou à Continente um contato com as filhas de Osman, que faleceu em 1978. E cujas cartas trocadas Passos passou um bom tempo lendo, até produzir uma crônica afetiva, em que como bom escritor, mistura a realidade com a ficção. A reunião foi no último sábado, em minha residência no bairro de Apipucos. Presentes minhas duas irmãs, Litânia e Ângela, e também a equipe da revista, liderada por Adriana Dória e Mariana Oliveira,  respectivamente  editora e editora assistente da publicação, que entra em seu número 200, com novo projeto editorial e gráfico. Veio também o fotógrafo e cinegrafista Eric Gomes, que gravou toda a conversa entre o escritor e as filhas de Osman Lins. Passos é fã de Osman, e acha que livros como Avalovara e Nove, Novena estão entre as maiores obras da Literatura Brasileira.

Reconhece, inclusive, que a leitura dos livros de Osman o ajudaram a buscar e achar caminhos em sua própria literatura. Foi uma conversa agradável sobre papai, sobre suas manias, seu hábito de escrever, sua vida metódica, quando o assunto era produção literária. Ele perguntou muito. Mas falamos, também, da convivência entre o pai e as filhas. Terminei esquecendo de fazer uma pequena entrevista com José Luiz Passos, que assina a crônica afetiva sobre Osman Lins, na Continente, com base na correspondência trocada com as três filhas. O vídeo gravado com o escritor na conversa comigo e minhas irmãs está sendo editado. E será veiculado na versão digital da Continente. Passos já retornou aos Estados Unidos, onde reside, e ensina Literatura na Universidade da Califórnia.

Aparentemente recuperado do câncer que o acometeu em 2016, Passos esteve em Pernambuco para participar de uma residência literária na Usina Santa Terezinha, que fica na região canavieira em que o escritor passou a infância. Ali, dedicou-se a concluir o livro Antologia Fantástica da República Brasileira, que deverá ser lançado pela Cepe em setembro, durante a Fenelivro, que ocorre no Centro de Convenções. Simples, simpático e cheio de histórias, ele é autor, também de O Marechal de Costas e Nosso Grão Mais Fino. Também tem ensaios publicados. Passos – que é professor – quis saber como era a convivência de Osman Lins com os alunos, quando este ensinava Literatura em Marília, São Paulo. Foi ótimo ter conhecido Passos, quando conversamos até sobre livros que aumentam e que baixam o astral dos leitores. No fim do papo, regado com castanhas brejeiras e cubinhos de queijo de coalho (produzido na cidade de Capoeiras), dei um mimo para Passos. Mas não eram livros, nem cartas, nem manuscritos, nem nenhuma palavra cifrada. Apenas três sapotis. Como bom pernambucano, confessou que o sapoti é sua fruta predileta.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Eric Gomes / Continente

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