Ternura, flanelinha e cadela acidentada

Flanelinha e lavador de carro – cujos trocados servem para o sustento da família – Nilson Francisco parou suas tarefas na manhã da quarta-feira para tomar conta de uma cadela de rua que sofreu um acidente. Permaneceu na chuva, enquanto o animal, cabisbaixo, tremia a pata traseira, provavelmente devido à dor. Os olhos eram suplicantes, mas o bicho estava silencioso. Sem “gemer”.

Nilson trabalha na Praça de Casa Forte, de onde tira o seu ganha pão, em uma profissão da qual todos os motoristas se queixam: a de guarda-carros. Mas foram poucos os que, como ele, foram solidários com o animal. Uma senhora deu o guarda-chuva, com o qual ele passou a proteger o bichinho, cujo nome ninguém sabe. Chovia, mas ele preferiu abrigar a cachorrinha, que implorava socorro com o olhar.

Uma moradora da Praça ao ver a situação do animal, foi em casa buscar água e alimento, enquanto Nilson, sob a chuva, dava conforto à vítima do acidente. “A moça foi buscar água e ração, deve ser uma pessoa muito boa”, afirmava ele, sem se espelhar no seu próprio exemplo. Nilson não sabia que o Recife tem agora um hospital veterinário público, para atender a casos de emergência. “Deve ser muito caro”, disse a um amigo nosso, que anda todos os dias na Praça e que reproduziu os diálogos para mim.

Passei no local, às pressas, pois tinha uma consulta médica.  Bati a foto, pensando tratar-se de uma simples amizade entre cão e dono, porque achei linda a cena, tão cheia de ternura.  Ao saber da história, tão bonita, resolvi fazer o registro. Se a amizade já valia a, a solidariedade se tornara ainda mais comovente.  Então, voltei para conversar mais com o flanelinha. Quando cheguei à Praça de Casa Forte, nem Nilson  nem o animal acidentado estavam mais lá. Não sei o que aconteceu depois. Se a cadela foi socorrida. Amanhã, quando for à aula de Pilates, que é naquela Praça, provavelmente saberei o desfecho da boa ação do flanelinha solidário e da “moça de coração bom”.  Nessa sexta, passei no local. Encontrei o Nilson. Ele me informou que a história teve um final feliz. “A moça boa foi em casa, pegou o carro e levou a cachorrinha para o veterinário, para engessar a perninha”. Grande Nilson. E grande moça boa…

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Texto e foto: Letícia Lins / #OxeRecife

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