Identidades, memória e sustentabilidade

Amigo de longas datas – estudamos juntos, quando crianças, na Escolinha de Arte do Recife – o pernambucano Cildo Oliveira inaugura nesse sábado (10) a exposição Indentidades e Diferenças. Mas infelizmente não é aqui no Recife não. É em São Paulo, na Galeria Arte Aplicada. É uma pena que os pernambucanos não possam ver a mostra  até porque ele se reporta ao Recife, à presença holandesa, ao Rio Capibaribe, tão marcante na paisagem de sua cidade natal. São trabalhos de muita delicadeza. E também de memórias e significados.

Leia também:  

Um retrato do Recife em meio milênio
Não perca a viagem ao passado com Debret
Aos 480 anos o Recife não é só beleza

Identidades e Diferenças reúne 16 obras, em duas séries: Narrativas Míticas e Peles do Rio, e ainda uma instalação com a proposta de trabalhar as questões ligadas ao meio ambiente e à sustentabilidade. Para os que não sabem, há pelo menos três décadas, Cildo trabalha a técnica de produção de papel manufaturado, que termina servindo de suporte para suas obras. Além do viés da sustentabilidade, tal opção tem um lado curioso, com toque de sofisticação. Para produzir os papéis recorre aos finos saquinhos de chá que seriam normalmente descartados. “Mas só servem os de chá inglês”, avisa.

Pelas mãos do artista visual, eles se transformam em folhas finas, sobre as quais recria personagens ou mapa históricos. Esse suporte é o utilizado  na série Narrativas Míticas. Nela, Cildo se apropria de imagens do Recife, durante o período flamengo no século 17 e do qual ainda restam marcas na cidade, reportando-se a imagens documentais daquela época, como paisagens, frutos, personagens. Destaca-se também, a constante presença do Capibaribe, então cercado por sobrados que eram construídos perto da região portuária. Em Peles do Rio, o artista visual utiliza outro tipo de papel como suporte, mas também por ele produzido, só que a partir da própria celulose. E aí joga com a iconografia indígena, mas tendo o rio como mote. “Seus habitantes, sua flora, fauna, seus mitos”, explica.

Mapa Citta Maurizia, um dos quadros de Cildo Oliveira em expô em São Paulo.
Mapa Citta Maurizia, um dos quadros de Cildo Oliveira em expô em São Paulo: papel fabricado com saquinhos de chá inglês

Cildo é pernambucano, mas mora em São Paulo desde 1975, onde montou seu ateliê. Artista visual, já participou de importantes exposições, no Brasil e no exterior, inclusive nos Estados Unidos e na Espanha, onde ganhou o XXII Prêmio Joan Miró – Barcelona. É citado em livros como Crachá – aspectos da legitimação artística – Clarissa Diniz – Fundação Joaquim Nabuco – Editora Massagana, 2008; Ensino da Arte- memória e história – Ana Mae Barbosa – Ed. Perspectiva 2008; Maria Bonomi – Da Gravura a Arte Pública. – org. Mayra Ludanna – Ed. USP -2008. Tem obras no Acervo Artístico e Cultural dos Palácios do Governo de São Paulo e em outras instituições como  a Pinacoteca daquele Estado e o Acervo Newark Art Gallery, de Ohio, nos Estados Unidos. Cildo graduou-se na Faculdade de Direito do Recife (Ufpe), mas decidiu exercer o ofício de artista. No Recife, tem trabalhos na ArteBa Espaço Contemporâneo, que fica na Rua Marechal Rondon, 305/202, bairro do Poço da Panela.

Serviço:
Abertura: 10 de junho de 2017, das 10 às 15 horas
Galeria Arte Aplicada – Rua Haddock Lobo, 1406, SP – (11) 3062-5228

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Marcelo Chechik / Divulgação

Compartilhe

2 comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.