Fruteiras rareiam em mata devastada

Conforme prometi, vou marcar essa semana do Meio Ambiente, abordando questões como a destruição do nosso verde. Antecipei na segunda-feira que tinha ido a Paulista, a pedido de moradores que acusam a devastação da vegetação nativa daquele município, vizinho ao Recife. Com um amigo, Fernando Batista, estivemos na chamada Mata do Frio, onde antes eram vistas árvores frutíferas como a cajazeira, a jaqueira , o fruta-pão, coqueiro e até algumas que estão sumindo do nosso litoral, como o araçá, cuja foto abre esse post. A frutinha – com a qual se faz uma geleia saborosa – era abundante nas praias de minha infância.

Estivemos no bairro de Jardim Paulista e também no Aurora, este na parte mais alta, e hoje ocupada por edifícios residenciais.  A Mata do Frio margeava uma de suas extremidades, mas do alto do Aurora o que se vê agora é terra nua e condomínios já implantados, em meio a uma paisagem inóspita e da cor do barro. “Aqui tudo era mata, a gente nem precisava comprar fruta”, afirma João José da Nóbrega, morador da Rua Almirante Tamandaré desde os 11. Ele brincava na mata, onde se fartava com frutas, quando criança. “Acabaram com tudo, só ficou mesmo uma cajazeira, aquela dali”, reclama, apontando para a sobrevivente.  Informa que a construtora responsável pela edificação do condomínio acabou como que era verde.

Residente desde os onze no bairro de Aurora, junto à Mata do Frio, João José Nóbrega, 44, reclama da destruição de fruteiras como pés de manga e araçá em Paulista.
Em Aurora,  João José Nóbrega, 44, reclama da destruição de fruteiras como pés de manga e araçá na Mata do Frio.

“Até meus 16 pés de acerola e seis coqueiros foram embora na motosserra”, diz. Afirma que só sobrou o “tronco” (na verdade o caule) de um dos coqueiros, que aproveitou para usar como mobília. “O pessoal já começou a reclamar, pois até um muro passaram na frente de nossas casa, para impedir o acesso ao que restou da mata”. Ele afirma que já sente os primeiros sintomas da derrubada das árvores. “A temperatura esquentou, não é mais a mesma, nem corre mais aquela brisa fria”. E sentencia: “O que fizeram aqui foi destruição mesmo e eu penso que se derrubaram as plantas, pelo menos que plantassem outras, mas nada aconteceu como vocês podem observar”.

Ele disse que além da destruição da mata nativa, os condomínios construídos na área devastada da Mata do Frio trouxeram outros problemas. “Hoje tem mais esgoto escorrendo na rua, e sem a mata, o fedor que vem do lixão da Mirueira, a três quilômetros daqui,  chega na nossa casa”.  Normalmente, as imobiliárias usam para os condomínios nomes que lembram o verde, fazendo referências a essa cor ou a uma cobertura vegetal que não se vê mais. Dois exemplos: Green Village ou Bosque do Janga, que ficam em matas distintas, ambas com grandes  áreas destruídas. O primeiro fica em terras onde antes da chamada Mata do Frio. O segundo, na chamada Mata do Janga. (O #OxeRecife procurou informações na Prefeitura de Paulista sobre a destruição das matas ainda na semana passada, mas até hoje não chegou nenhuma resposta às demandas encaminhadas por e-mail.

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Fernando Batista

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