Belmar e os livros que rendem filmes

Nos últimos 20 anos, tivemos uma boa safra de filmes realizados no Nordeste, capitaneados por diretores nordestinos, inclusive pernambucanos. São produções como “O Baile Perfumado”, “Dor de Cabeça, Aspirinas e Urubus”, “Amarelo Manga”, “O Som ao Meu Redor”, “Tatuagem” e “Aquarius” que têm a região ou mesmo o Recife como cenário. No momento, há dois outros em fase de produção: “Piedade” e “A Costureira e o Cangaceiro”. Eles se passam em épocas diferentes, mas são ambientados no nosso espaço geográfico.

Pois já está no tempo dos nossos cineastas prestarem atenção em Cícero Belmar, que acaba de ser eleito para a Academia Pernambucana de Letras. Jornalista, escritor e dramaturgo, ele tem uma obra respeitável, que lastreou o seu caminho à APL. É autor de nove peças de teatro, sendo seis infantis e três adultas. Ao todo, cinco já chegaram aos palcos. Tem, ainda, três romances, dois livros de contos e duas biografias.  Não conheço toda a obra de Belmar, mas sempre fui fã dos seus textos jornalísticos, geralmente voltados para personagens anônimos da noite recifense. Nunca esqueci suas reportagens sobre prostitutas, travestis, excluídos. E sempre cobrava mais, quando o encontrava, depois dele ter assumido um cargo na hierarquia da redação que não lhe dava tempo de ir às ruas. Eu reclamava: “Estou sentindo falta da leitura dos seus textos”.

Cícero Belmar resgatouu a história de Pola e a passagem de Roberto Rossellini pelo Recife.
Cícero Belmar resgatou a história de Pola e a passagem de Roberto Rossellini pelo Recife: livros que renderiam filmes.

Meu amigo terminou migrando para a literatura. Dos livros que li de Cícero, pelo menos dois foram se desenrolando em uma sequência de imagens, que além da leitura, funcionaram como um filme na minha cabeça. Um é “Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom”, no qual ele faz uma deliciosa ficção em cima de fatos reais. No caso, a visita do famoso cineasta italiano ao Recife. Recém separado de Ingrid Bergman, ele veio conhecer o Estado, com a intenção de ampliar sua produção de cinema digamos, de cunho social. Encantou-se com a obra de Josué de Castro, e veio conhecer a realidade da geografia da fome. Mas nem fez o filme e foi embora sem explicação. Não sem antes passar por puteiros do bairro do Recife, inclusive a famosa pensão de Dona Bombom.

O outro livro que me deixou encantada  foi Pola. A sua leitura terminou me lembrando de produções como “Olga”, este dirigido por Jayme Monjardim. O livro é uma biografia de Pola Berenstein, para nenhum roteirista local ou global botar defeito. Pola narra a saga da menina judia, que vivia na ex Bessarábia, depois Moldávia . Comunidade atrasada e rural,  a Bessarábia passou por privações pesadas, durante a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil Soviética, enfrentou mortes em massa na ditadura stalinista. E no nazismo, comeu o pão que o diabo amassou. Lá não havia campos de concentração. Então os alemães obrigavam os judeus a longas caminhadas sem destino certo, arrastando adultos e crianças por longas jornadas a pé, sob o frio, a sede e a fome. Em uma dessas colunas de terror, estava Pola. O grupo inicial tinha 1800 pessoas, das quais só 50 sobreviveram. Pola foi uma delas. Como conseguiu, é história digna de cinema.  A trajetória de Pola foi resgatada por Cícero Belmar, na biografia da judia, que fugiu com o marido para o Recife, onde teve filhos, netos. História que daria filme, enfim, com final feliz.

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife

Fotos: Chico Bezerra / Divulgação

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2 comentários

  1. Cícero Belmar nos orgulha a nós bodocoenses, não o conheço bem, mas não precisa ser tão inteligente para saber da sua longa estrada literária. Que pena que os governos municipais da cidade não disponibilizam suas obras para que a população conterrânea tenha o direito de conhecê – las melhor!

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