Pastoril é sonho de infância e razão de viver de Dona Lourdes

Pensem em uma bela história. É a de Dona Lourdes do Nascimento, fundadora do Pastoril Rosa Mística, homenageada pela Prefeitura no Ciclo Natalino 2016 do Recife. Natural de Caruaru, e trabalhadora rural desde menina, ela atravessou boa parte da vida alimentando uma grande frustração. Durante a infância e a adolescência, nunca teve tempo para dançar o pastoril. A enxada não lhe dava trégua, na Região Agreste, onde residia com a família. “Saía de casa às quatro da manhã e voltava às três da tarde. Lembro que houve um ano, em que só tive condições de ir por três dias à escola, porque precisava trabalhar no roçado, e não tinha tempo nem dinheiro para ser pastora”, diz. Como todo mundo tem um sonho, Lourdes firmou o dela.  Foi só adiando o projeto. “Eu pensava, quando for adulta, vou fazer um pastoril”. E fez, em 1959,  aos 16, oito anos após ter se mudado com os pais e irmãos para o Recife, fugindo da seca.

Com infância marcada pelo trabalho da enxada, Dona Lourdes fundou pastoril aos 16, para realizar o sonho de infância.
Com infância marcada pelo trabalho da enxada, Dona Lourdes fundou pastoril aos 16, para realizar o sonho de infância: Homenagem oficial em 2016.

Hoje o Rosa Mística é uma das razões de viver de Lourdes. Muitas vezes, precisa de cestas doadas, para garantir o próprio sustento. Mesmo assim, todo mês tira dinheiro dos minguados trocados de sua aposentadoria, para viabilizar anualmente o seu projeto de levar o Rosa Mística aos palcos do Recife. “Toda a minha vida chorei por não participar de um pastoril”, explica, como forma de justificar tanta dedicação. Ela lembra quando formou os cordões azul e encarnado pela primeira vez, convocando as meninas da via onde morava, a Gomes Taborda, conhecida como Rua da Lama, no bairro do Cordeiro.  Em 1959, fui pedir ajuda a um vereador, já falecido, para armar o palco. Para tristeza de Lourdes, o político indagou: “Pastoril, o que é isso?”. Ela lhe descreveu os dois tipos de pastoril – o religioso e o profano (também chamado de ponta de rua) – e confeccionou as fantasias das meninas da primeira apresentação, em papel crepom. Foi uma festa.

Depois, o figurino evoluiu para o tecido de cetim. “Queria ter dinheiro para fazer um pastoril bem bonito, mas faço o que posso. Compro tecido, corto as roupas, costuro”, diz. “A gente faz o que gosta”, explica, mas reclama das dificuldades para colocar o grupo na rua. “Foi um sufoco para o Rosa Mística se apresentar no Centro esse ano. Faltavam até sapatilhas”, diz, sem reclamar. “Mas consegui comprar tudo, usando até o cartão de crédito dos outros”. O amor pelo folguedo natalino é tão grande, que Dona Lourdes chegou a fundar três pastoris em um ano só: um de crianças, um de moças e um de homens (talvez o único no Estado). Quando acabava a apresentação dos dois primeiros, os rapazes da comunidade vestiam as fantasias das pastoras, e caíam na brincadeira. Hoje, vive em função do infantil, o Rosa Mística. Fica aqui a sugestão: porque não transformar sua casinha, onde ocorrem os ensaios, em ponto de cultura? Quando se aproxima o final do ano, Dona Lourdes afasta os móveis toda noite, para ensinar as jornadas às suas pastoras. Uma figura, essa Dona Lourdes….

(Texto: Letícia Lins)

(Fotos: Divulgação / Secretaria de Cultura do Recife)

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