O “Velório Poético” do Recife

Parece um funeral, mas não é. Tem até caixão de defunto, “coroas de flores”. Mas só que ao invés dessas flores – tão comuns nas despedidas – havia sobre avencas pratos com tira-gostos e salgadinhos, regados a vinho tinto. Na verdade, o que aconteceu no final da tarde do dia 2 de novembro, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, na Rua da Aurora, foi o Velório Poético, que entrou este ano em sua décima edição.  Se no México o Dia de Finados é uma festa, e se no Recife teve até maracatu no Cemitério de Santo Amaro, por que não assinalar a data com uma iniciativa diferente? Pois ela acontece, todos os anos, no Mamam.

O objetivo: celebrar vida e obra de nomes importantes da cultura local, como Jomard Muniz de Britto, Paulo Bruscky, Daniel Santiago, entre outros. Em 2016, os homenageados foram o poeta Flávio Chaves e Itamar Morgado, autor de livros infantis. O velório foi criado por Sílvio Hansen e Marcus Asbarr, a partir de uma conversa com os amigos Vital Correia de Araújo e Daniel Santiago. Eles dizem que o evento, embora no Dia de Finados, não se trata de celebração à morte, mas uma ode à vida. O microfone ficou aberto, para quem quisesse declamar. Versos próprios ou de terceiros. Previdente, Jomard escolheu versos de Fernando Pessoa, e chegou com o que colheu de melhor sobre a morte do poeta português.

Entre outros, no seu caderninho: “A morte é o desprezo do universo por nós”. E ainda: “Morrer é não precisar de outrem”. E mais: “Que coisa é esta, que nos mede, sem medida e nos mata sem ser”. Quando saí do “velório”, Jomard ainda não havia declamado. Mas a poesia já estava no ar,  acompanhada pelo som meio sinistro do DJ. Comentário digno de registro foi o do flanelinha Alberto Pedro da Silva, quando saí do evento. “Sempre sobra um rango para mim no final das festas desse museu. Vai ter hoje?”,  indagou. Eu falei: “Pode entrar e se servir. Está cheio de comida, em cima do caixão”. E ele respondeu: “Mas  o que tem aí é um velório?”. Respondi: “É sim, mas de mentira, com poesia e comida. Vai lá, que você come”. E ele respondeu: “Então não é um velório não, é arte mesmo”. Achei o máximo. Quem chegava, no momento em que eu saía, era o roqueiro Canibal, do Alto José do Pinho, vocalista da Banda Devotos. “Não falto de jeito nenhum. Venho todos os anos”, disse.

(Foto: Letícia Lins / #OxeRecife)

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