De volta ao “quem me quer”. Sabe o que é?

Olhem só que cena divertida. Perguntei à moçada se sabia como se chamava antigamente essa mureta margeando o Rio Capibaribe, na Rua da Aurora, em frente ao Cinema São Luiz. Ninguém sabia o que era o “quem me quer”. Mesmo assim, meu colega, cineasta e professor Alexandre Figueiroa, ainda deu uma dica. E colocou no seu Facebook uma fotografia, com referência ao “quem me quer”, tão animado desde 28 de outubro, quando teve início a IX Janela Internacional do Cinema do Recife. Eu fiz o mesmo, no meu Face. E também falei sobre o assunto com a meninada.  E garotas e garotos indagavam: “Quem me quer, o que é isso”?

Pois então vamos lá. Entre as décadas de 1950 e 1960 – quando o centro do Recife era um lugar muito agradável, sem assaltos nem arrastões- os grandes eventos da Cidade se limitavam aos Jogos Escolares e à Festa da Mocidade. No São João e no Natal, havia, também, o Sítio da Trindade. Eram todos locais onde a paqueragem rolava solta entre os estudantes. Não havia shopping-center, nem tantas baladas. Na ausência dessas festas, o local de paquerar era o “quem me quer”. A meninada ia ao cinema, tomava um sorvete na icônica Sorveteria Gemba, e depois ficava na calçada, a passear. Ou a comer algodão doce e pipoca, no “quem me quer”. Ali ocorriam troca de olhares, de endereços, telefones. Muitos namoros começavam naquela calçada.

Lembro que uma vez, minha mãe e minha tia Isabel marcaram um encontro em frente ao Cinema São Luiz. Na calçada oposta, exatamente onde ficava o chamado “quem me quer”. Casada, mãe de três filhas, mamãe ficou com vergonha de permanecer no “quem me quer”, esperando minha tia. Poderiam pensar mal dela. Por sua vez, minha tia – que era solteira – ficou envergonhada de esperar minha mãe no “quem me quer”. Se uma vizinha visse, poderia pensar que ela estava catando macho por ali. E ambas, convenhamos, não eram mais colegiais, que tradicionalmente ficavam ali, entre conversas e flertes.

Resultado: Mamãe chegava, não via a irmã, dava uma volta. E vice-versa. Assim, se passou toda a tarde. Ambas chegaram em casa, tiriricas da vida, uma com a outra, e com o tempo e o filme perdidos. Depois de muita discussão, entenderam o motivo do desencontro. Nenhuma queria se “expor” no “quem me quer”. Vamos lá? Pois durante a IX Janela Internacional do Cinema do Recife, o “quem me quer” floresceu. Talvez nem como lugar de paqueragem, mas de muita conversa sobre os filmes assistidos e também, de oferta de comidinhas. E a história ressurgiu. Faço questão de lembrar esses fatos, em nome da memória de um Recife que começa, aos poucos, a desaparecer.

(Foto: Letícia Lins/#OxeRecife.)

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3 comentários

  1. Que coisa linda poder ler um relato desses, sobre um Recife que eu infelizmente nunca vou conhecer! Que as coisas mudem, e as pessoas voltem a ocupar os espaços públicos! Que surjam muitos “quem me quer ‘contemporaneos'” também!

  2. Se tivéssemos mais segurança a população ocuparia os maravilhosos espaços q Recife possui e isso geraria um círculo vicioso do bem. Mais gente na rua maior a sensação de segurança.

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